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Vida é uma doença terminal

Nasce, essa noite, agarrando o gargalo de uma garrafa de Quilmes, um prelúdio do que, espero, vire uma tese forte de um serviço social a uma minoria, tão minoria que ninguém jamais se ateve a ela.

Prometo uma defesa simples e livre de verborragia. Mas não consigo garantir a promessa, apenas desejar seu cumprimento.

“Seu filho é uma unidade de carbono, e as unidades de carbono tendem a se decompor, na Terra, com o tempo. Inclusive, a Senhora também apodrecerá em breve, porque é científico. Nós somos seres limitados e todas as funções vitais tendem a entrar em colapso com o tempo. O seu só foi antes do tempo, mas vai acontecer com todos aqui! Agora, durma bem, Senhora.”

Esse é Leandro Karnal, historiador, Shakesperiano e palestrante, ofertando um consolo não religioso a uma mulher que perdeu seu filho, como proposta de analogia em uma palestra, respondendo à questão de um jovem sobre a nobreza espiritual de Saulo de Tarso, nosso apóstolo Paulo, doutrinador cristão.

Leandro, talvez, seja, com Pondé e Cortella, uma das três mentes pensantes mais brilhantes de nosso país.

 

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Leandro Karnal, historiador e professor universitário pela UNICAMP

 

Sarcástico e ácido em seu humor cogitante, quanta razão repousa em sua ironia?

Aristóteles – siiiiiiim, Aristóteles de novo – afirma serem os entes materiais corruptíveis, uma vez que formados de matéria, sendo “matéria princípio de corrupção”. A única generalização que gera premissa no mundo é: “todo homem é mortal”.

Dentre tudo que sabemos, muito ou pouco, basicamente nada é certeza. Exceto a morte.

Como boas unidades de carbono que somos – materiais e corruptíveis -, a morte é nossa certeza.

Nossa, que material depressivo – você poderia afirmar. Mas não! Que material de reflexão realista!

Todos podemos nos ater a fés e crenças de vidas futuras e reencarnações. Mas quanto, nesse processo, estamos atenuando de dor e desespero de nossa real natureza e, por quê não, incontestável conclusão de existência?

“Tudo é vário”, como escreveu Chico Buarque. Esse “tudo” nos contém! Mas não quero ser vário! Quero ter valor e me tornar eterno! Quero durar para sempre!

Ah, a soberba humana de buscar a fonte da vida eterna! Não seria isso qualquer especulação de continuidade pós transformação das unidades de carbono?!

Quem sou eu para julgar crenças e fés? Ninguém! Mas, também, quem é você para afirmá-las como inquestionáveis?! Empatamos!

Mais certo do que dois e dois são quatro, cada minuto vivido é nada mais ou menos que menos um para viver.

E, aqui, sem mais delongas, afirmo: vida é uma doença terminal.

Nascemos e, ao tapa na bunda que busca o choro, ouvimos: você tem X tempo para viver. E esse X não está grafado em qualquer equação que possa ser resolvida. É uma incógnita perfeita!
Esse X não atenderá às suas aspirações de boa saúde e boas práticas alimentares: você pode sofrer um acidente. Esse X não corresponde aos seus vícios e más práticas de conservação: você pode ser imune. Esse X não respeita quão bom e generoso você tem sido: você pode sucumbir a fatores externos incontroláveis.

Quanto a fé nos alimenta boas esperanças de longevidade e, por quê não, eternidade? Mas quanto essa esperança corresponde ao que é de fato aplicado como regra?

Morrem bebês, inconscientes e indefesos como nascem Hortências num pé! Aos montes!

Karma de outras vidas?! Justiça divina?! Planos certos, escritos em linhas tortas?! Sério?!

E a liberdade e o tal “livre arbítrio” do “faça tudo menos comer do fruto daquela árvore”?! Esses bebês comeram?! Ou então, como linhas mais obcecadas defendem, DEVEM pagar o crime do seu molde, Adão?!

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Vida é, meus queridos, uma doença terminal. E doenças terminais não respeitam suposições de especialistas.

O fim pode vir aos cento e tanto? Pode, como tantos viveram! Pode vir aos sessenta e tanto? Sim! Assim a média define! Mas pode ser hoje, pode ser amanhã, a qualquer momento. independentemente de minhas escolhas e ações, o piano pode despencar na calçada!

Vê, aqui, como essa total impotência de controlar o futuro é terrível? Não é absurdamente mais confortável acreditar que alguém guia meus passos para que eu sequer tropece em pedras? Acreditar que meu destino está escrito nas estrelas e todos os caminhos me levam inexoravelmente para um fim planejado e milimetricamente construído?

Novamente, não estou aqui para questionar sentimentos ou crenças alheias, apenas para provocar uma reflexão mais ousada, mais livre de paradigmas recebidos.

E aí eu pergunto: e se não houvesse divindade nenhuma ou destino nenhum, e o acaso imperasse, você deixaria para amanhã algo que pudesse fazer agora mesmo – afinal, nem o próximo minuto é certo? Você perderia sagrados minutos na frente da televisão, assistindo uma novela ou um programa de auditório? Mas ao mesmo tempo, se renderia à bestialidade, irresponsável por seus atos, pois, por fim, tudo acaba aqui?

Essa sempre foi a maior preocupação dos mantenedores das cercas: sem elas os animais ficariam incontroláveis! Mas eu ouso questionar: não será porque já nasceram cercados e agora desejam experimentar tudo de uma vez só? Cão acostumado com a rua desespera frente portões abertos?
Não, né?

Talvez o melhor contra-argumento frente esse temor da bestialização seja: Adolf Hitler viveu por ideais religiosos de vida eterna e supremacia de escolhidos; Carl Sagan viveu por ideais de engrandecimento da humanidade, supondo estar a vida no alinhamento casual de átomos…

Deixando perguntas e possíveis respostas no ar, concluo com uma última, e adoraria receber respostas: o entendimento de um amanhã certo não nos faz preguiçosos hoje?

Enquanto isso, a contagem regressiva continua…

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