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Um escritor que não escreve

Não. Não sou escritor. Ou sou…
Essas coisas dependem de um nível de soberba abstrata tão profunda que, ao dizer-se não sendo, dói o peito por ser-se; dizendo-se ser, moem-se as costas por não sê-lo…

Eu sou escritor. Eu escrevo.
Escrevo contos, sejam líricos ou eróticos. Escrevo ensaios, sejam filosóficos ou experimentais. Escrevo poesias, ainda que sequer sigam qualquer regra arcaica. Escrevo músicas, ainda que nunca tenham prestado…

Ouso escrever colunas sobre tecnologia, com pouco mais de dez anos como especialista em Tecnologia da Informação direcionada ao negócio, e um bem específico: comunicação. Ouso. Dez anos não são nada.

Carrego comigo um profundo prazer de ter vivido e trabalhado com mestres (nomeiem os principais e poderei contar desses um’anedota… É um prazer idiótico, mas terrivelmente prazeroso) da comunicação…

Escrevo.

É algo que me faz bem, uma válvula d’uma alma adoecida, querendo explodir, que volta e meia ameaça os medidores de pressão. Escrevo, tanto quanto posso.

Porém, humano que sou, muito me disponho ao pouco que posso (ou devo). Temo que tenha cometido o crime da fábula da árvore de maçãs (aquela que dava uma por dia aos moradores do condado). Eu comi todas de uma vez, e matei a árvore. Extingui a fonte de alimento de uma vez só, por ganância, por tesão, por pressa, por qualquer motivo vil que se venha a imaginar. Eu matei a imaginação, a gana de escrever.

Mas escrevo.
No entanto, não mais escrevo.

Eu não sou escritor, embora talvez tenha sido, por seis meses, um ano. Eu não sou escritor (não mais, ao menos) porque não mais escrevo.

Como um marceneiro sem braços, um cantor rouco ou um motorista sem pernas, escrevo, mas não mais posso escrever.

Vivo a angústia de desejar fazer, buscando nas ruas, nas árvores, nas flores, no sol, na lua, no olhar da mulher que me encanta, na criança que me sorri, no cão que me ladra a inspiração que me era algo tão comum há tão pouco tempo…

Abraço os mendigos, beijo francescamente as prostitutas, sorrio aos garçons, sento com os animais famintos, abandonados, me sentindo apenas mais um… Sinto o vento, o calor infernal do sol tropical, os insetos e as fezes lançadas às praças, mas não sinto um mínimo carinho de inspiração…

Me sento ao ecrã e choro de tristeza por não poder mais que rolar o rolete, mostrando o que outros tantos escrevem, o que outros tantos dizem, o que outros tantos sequer sabem que estão dizendo, se sequer sabem o quê quereriam dizer…

Pergunto aos amados o quê fazer, e me dizem para ter paciência, mas nem isso minhas doenças mentais me permitem! Eu jamais tive paciência! Eu vivo no inferno do hoje, do agora, do pronto, do “depende de mim então faço”! Trancado num corpo pragmático, que nem pode compreender a grandeza do criar, eu penso ser isso uma métrica, uma ordem externa ou interna que deva ser acatada. Mas não é! Eu surto! Meus poucos parafusos começam a espanar na quentura infernal que minha cabeça assume!

Não bebo com o prazer que bebia… Bebo apenas para poder dormir! Bebo p’ra fingir que não estou de condenação ao pescoço por perder minha última (e única) motivação. Bebo p’ra que o tempo se passe mais depressa e eu possa acordar teso por sentar e rasgar papel com caneta (a coisa mais deliciosa que aprendi, nesse mar de lágrimas a fazer).

Hoje nem mais beber eu quero, e só o faço pelo vício.

O que queria era escrever, mas há meses não posso, não posso fazer nem forçar, já que mataria o espírito mesmo da coisa.

Sou escritor. Eu só não sou capaz de escrever. Não mais.

O inferno cristão é uma piada diante disso…

Vivo o inferno de poder escrever, mas não ter o que escrever.
Vivo o inferno de, podendo, não mais saber escrever.
O DESERTO…

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