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Um arco-íris na cinzenta São Paulo

Pequenos gestos, pequenas manifestações, pequenas expressões humanas…
Como a pequeneza é a verdadeira autora de grandes coisas no mundo…

Uma sexta, como várias: após uma noite bem aproveitada, acordei atrasado p’ra cacete!
Aquele gostinho de tábua de chiqueiro na boca, uma ressaca violenta (quase um andarilho do deserto, de tanta sede) e a pressa própria do “poutz” de acordar na ora errada.

Corro com banho, água e comida do cachorro, cocôs na lavanderia, veste roupa, arruma cabelo, cadê a porra da minha carteira?! Nada novo numa manhã pós-noitada.

Duas goladas no gargalo do que ficou da Coca-Cola na geladeira, p’ra dar aquela reação química explosiva no estômago e, zaz: bora retomar o tempo perdido!

Entro no vagão do trem, o mesmo vagão de todos os dias, busco o assento de todos os dias (eu sou o único bagunceiro metódico para algumas coisas… Culpa do TOC). Me sento, pego meus fones e começa a brincadeira.

Sei lá onde, exatamente (tava mergulhado nos berros da Janis cantando “Take another little piece of my heart”), entra um cara falando alto. Penso eu: “Pastor… Puta merda”. Mas não! Não era! Entrou com um case pequeno de instrumento. Supus eu ser um cavaquinho ou um banjo. Pensei: opa! Ouvir música do jeito certo: ao vivo!
Saco, então, meus fones e, para a surpresa: um violino!

Ah, que paixão eu tenho por esses pequenos caixotinhos caracolados de madeira… Todas as vezes que tive um desses apoiado na papada, fui criança com brinquedo novo…

Começou, então, o discurso de Antônio de Souza, violinista solo (como se apresentou). Dançava entre as trepidações do percurso do trem, tocando MPB e brincando de mesclar músicas conhecidas com belíssimas digitações na escala desmarcada.

Eu segui o infeliz tanto com a cabeça pelo vagão que, provavelmente, mesmo ele não entendeu auhahuuhahua.

Foram vários minutos, ou nem tantos assim rs, mas a ninfa nos mergulha num ambiente tão alheio a tempo e espaço que isso não se mede.
Aqueles minutos de arco em corda não mudaram minha ansiedade de estar atrasado; não mudaram a chatice da vida de gado; não mudaram minha ressaca: mudaram meu dia!

Ao final, Antônio, com o case, passou coletando os préstimos dos poucos que lhe quiseram ouvir (mas isso é um debate para outro artigo), e não pude deixar de me questionar: quanto se deve entregar a alguém que, num empuxo inesperado mudou seu dia? Alguém que poderia, tranquilamente, estar em uma barca de Veneza, envolvendo apaixonados, mas está ali, no vagão de trem da cinzenta e carrancuda cidade de São Paulo, suburbão, p’ra piorar ainda a carranca, te oferecendo vida! Vida em forma de notas musicais e sorrisos impagáveis…

Antônio de Souza é uma pessoa simples. Não simples de pouca riqueza – entendam bem. Simples, como a definição Aristotélica de Deus se apresenta: simples, sem complicações.

Ao terminar sua performance, talvez pela cara de idiota alegre que estava, e por ter sido o único a iniciar aplauso, se achegou para conversar e, nas próximas duas estações, pude conhecer alguém que, talvez, sempre tenha conhecido: eu mesmo, com mais coragem.

Antônio fez a questão de repetir que, quem quisesse saber mais poderia visitar sua fanpage no Facebook (que estará ao final do artigo) – ressaltando que está hackeada mas, em breve, retomará os direitos e voltará a publicar.

Não sei se vão fazer questão de buscar saber quem é o Antônio, mas, mesmo assim, preciso que façam questão de entender uma coisa, e levar para a vida: quem faz coisas grandes são as Construtoras. A nós, cabem as pequenas. Pequenos gestos, pequenas ações, doações, pequenas entregas.
Ele se entrega com arco-íris na cinzenta São Paulo oferecendo vida.
Nós, o que fazemos para colorir a vida dos outros que estão em volta? Qual nosso pincel?

Que eu seja, um dia, Antônio para alguém.
Sejamos, todos, Antônios de Souza um para os outros!


A imagem de capa ilustra a fanpage de Antônio de Souza no Facebook:
https://www.facebook.com/AntonioSDeSouza

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