endlessriver
 

“The Endless River”, o álbum interminável

Sou louco por Pink Floyd desde garoto.
Conheci a banda e seu trabalho pelo filme “The Wall”, produzido por Alan Parker em 1982, tendo como roteiro o álbum homônimo da banda.

“The Wall” é um musical diferente. Trata a história de Pink, um músico em decadência, lidando com os conflitos de sua vida.
Fala de sua infância, com os abusos de seu professor perturbado, sua emotividade, resultado da perda de seu pai, um militar, e da super-proteção de sua mãe.

Pink torna-se, então, um roqueiro famoso, porém, não sendo capaz de conviver com suas questões emocionais, acaba um viciado.

É uma história maravilhosa, repleta de ilustrações abstratas de Gerald Scarfe, um gênio, que, em tempos onde depressão, ansiedade e outros conflitos mórbidos eram tratados de forma totalmente diferente de hoje, fala e muito, e bem alto, com quem compreende essa realidade.

O álbum, que dá nome e história para o filme, é composto por peças atemporais do Pink Floyd, como “Another brick in the wall”, “Comfortably numb”, “Goodbye bluesky”, “In the flesh?!”, “The trial”, e, embora não faça parte do filme, a inigualável “Hey you”.

 

endless-river-2

 

Depois de “The Wall”, nunca mais consegui retirar Pink Floyd de minhas playlists.

Tempos mais tarde, tive o enorme prazer de conhecer “Dark side of the moon”, O Álbum, capitulado, para representar a importância que teve em minha vida, entrando no hall dos meus trabalhos prediletos de todos os tempos.

Nunca tive o prazer de “conhecer”, tratando de linha do tempo, o Pink Floyd que tanto adoro. Um anos antes de nascer, Roger Waters, o letrista, baixista e vocalista principal, a esse tempo, deixava a banda. Mas isso tornou-se conhecimento para mim muito tempo depois, apenas rs.

Tudo isso contado antes para deixar claro como e quanto Pink Floyd, vivo ou já morto, fez parte de toda a minha vida, como ainda faz.

Acontece que há alguns anos, uma notícia derrubou a internet:
Pink Floyd (sem Waters, claro) lançaria um trabalho novo, com David Gilmour, guitarrista e co-vocalista, assumindo os vocais.

No anúncio desse novo trabalho, o álbum “The Endless River”, a canção “Louder than words” foi apresentada, já em versão final, com o clip oficial.

Assumo: fui à loucura.
Obviamente já não era o Pink Floyd que sempre conheci, mas uma coisa nova, diferente. Sou um dos poucos fãs que compreende e louva o direito do músico ou banda de revisitar-se e mudar completamente.
Acho uma puta bobagem reclamar de uma mudança brusca, especialmente numa situação como essas. Esperar o “mesmo Pink Floyd”, agora sem Waters, seria esperar autorais de Queen sem Freddie; esperar um bom Barão Vermelho com o Frejat na dianteira (até porque Frejat é ruim de dar pena). Seria pura grosseria.

De todo modo, “Louder than words” é um trabalho glorioso, divino. Letra e melodia doces, uma despedida de Richard Wright, tecladista então falecido, participante “mais que especial” da canção.

O clip é belíssimo, com um jovem barqueiro singrando as nuvens. Uma peça majestosa.

Fui talvez uma das primeiras pessoas a comprar o álbum duplo no iTunes, no lançamento. Baixei em meu celular e fui com a fome de setenta leões consumir a obra.

Num primeiro momento, dei a oportunidade ao gosto. Descobri, então, que o álbum era instrumental – coisa estranha, de imediato, por tratar-se de uma banda de Rock Progressivo -, mas não me assustei. Sou um profundo admirador de composições clássicas instrumentais. Pensei que seria uma experiência interessante.

 

endless-river-3

 

Confesso que, de primeiro, “gostei muito”, mas me apeguei muito a “Louder than words”, que já conhecia, e a “Talkin’ Hawkin'”, onde o cosmólogo Stephen Hawking, com sua voz artificial inconfundível, recita um de seus discursos sobre o poder da fala.
No mais, trilhas poucos nobres, repetitivas e enfadonhas.
Mais tarde soube serem reaproveitamentos de melodias nunca quistas por Roger. Tá aí.

Levei cerca de um ano para processar o que “The Endless River” representa para mim, e mais alguns meses até querer tocar no assunto.
Hoje, já cicatrizado, posso dizer sem qualquer pudor: trata-se de um álbum interminável, dada a chatice do material. Devia se transformar na trilha sonora oficial de velórios. Não tem alma, vida, não tem muito que se retirar. Passar a quase hora de duração olhando para o teto me soa muito mais produtivo.

Entendo ser uma enorme homenagem a Wright, mas não deixa de ser um atestado de óbito criativo, a declaração de que a alma do Pink Floyd era de fato o velho chato e ranzinza Roger Waters, e que desse arbusto não se deve mais esperar coelho algum.

Claro: gosto é como cu, e haverá quem tenha adorado. Eu achei terrível, e me sinto confortável em dizer isso.

E, para não ser destrutivo na crítica nem improdutivo, sempre que a saudade bater, o material antigo estará disponível. Essa é a graça da música: ela é imortal.

 

endless-river-4

 

Ah, e claro: quem gostar muito, mas muito do trabalho de Gilmour, pode se deliciar no que ele realmente gosta de fazer, ouvindo seus trabalhos solo, que são todos divinos e nada a ver com o Pink Floyd do passado. Coisa nova e boa de verdade!

Por fim, Wright que me perdoe, mas sua glória póstuma está muito melhor representada em “The Division Bell”. Ali sim!

Assim como cadáveres não caminham, bandas terminadas não produzem, nem mesmo se for o Pink Floyd. É uma triste constatação, e uma pena que seja verdade.

CC BY-NC-ND 4.0This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License. Permissions beyond the scope of this license may be available at Mario Feitosa - Políticas.