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A tão temida Deep Web

A Internet é terra fértil para plantar lendas urbanas.

Vídeos virais de fantasmas, Pepsi com fetos abortados, vermes na Catuaba, Terra plana, Nazismo de Esquerda, reptilianos no Serviço Secreto, avistamentos de OVNIs… Quem acha E.T. de Varginha, manga com leite e loira do banheiro coisa grande, não sabe de nada.

Como, na rede, o volume de informações é imenso, e estamos cada vez mais apressados, a superficialidade toma conta.

Contanto que haja um mínimo escrito (ou até uma simples imagem) falando sobre um tema, os descuidados já atribuem a esse o caráter infalível da verdade absoluta.

Tanto é que o ditado “tá na Internet, é verdade” tornou-se a maneira mais simples de debochar de uma abobrinha virtual.

Um dos principais mitos vivos é sobre a Deep Web, a tal “área monstruosa” da rede de computadores.

Sim, há um bloco imenso (por dedução) da Internet que é obscuro.
Sim, há materiais perturbadores e doentios transitando pelos backbones da rede mundial.
Sim, há inumeráveis crimes sendo cometidos agora mesmo na Internet (vários, inclusive, na caixa de comentários dos portais de notícia).
Porém, vale falar um pouco sobre o conceito, para evitar entendimentos inadequados ou superestimados.

A Internet, como nós conhecemos, é o que chamamos de “Surface Web“, a superfície.
Ela representa todo o material que mecanismos de busca, SEOs e fetchings são capazes de indexar.
Indexar é organizar num catálogo de disponibilidade. Uma lista.

Esse conjunto de conteúdos que podem ser listados é público. Todos têm acesso.

Encurtando, se está no Google, é Surface Web.

No entanto, nem tudo que está na rede faz parte da Surface.
Como disse antes, há um bloco imenso composto por estruturas “obscuras“, enquanto não indexáveis.

A elas, de modo geral, costuma-se chamar “Deep Web“, a “teia profunda“.

Para entendermos a dimensão disso, costuma-se fazer uma analogia entre a Internet e um iceberg, tratando a ponta visível como a Surface (4%, estima-se) e o bloco gigante de gelo oculto como a Deep Web (os 96% restantes).

 

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Pensando nisso, é comum assustar-se com a quantidade de materiais que estão trafegando por aí, especialmente porque a “ponta” desse iceberg já corresponde a um abismo de dados e informações.

Agora, e essa parte oculta, “obscura“, tão imensa? É composta de quê?!
É fácil, mas não simples:

Sendo Deep Web qualquer conteúdo que esteja na rede mundial de computadores, porém fora dos mecanismos de busca, podemos afirmar que é composta por qualquer conteúdo que dependa de ferramentas para seu acesso.

Tais ferramentas podem ser encapsulamentos específicos, como VPN; criptografias, como cartões inteligentes, dungles, tokens; protocolos de segurança, como AES, X25, Kerberos; ou mesmo uso de autenticação simples, como usuário e senha.

Tudo que está na rede, dependendo de algum meio específico para acesso, é Deep Web.

Para não estar falando mandarim aqui, vou listar alguns exemplos:

O seu Whatsapp está na rede, mas depende de validação por SMS ou de leitura do QRCode, no modo web, para ser visto.
Eu não posso pesquisar no Google, Bing ou no Yahoo! e achar uma conversa sua do Whatsapp, certo?
Mas você pode perfeitamente comprar um celular novo, instalar o SIM Card, ativar o app e baixá-las, ou entrar em um computador, ler o QRCode e acessá-las.

Com isso, veja:

O conteúdo do seu Whatsapp está na rede, porém não está indexado, dependendo de ferramentas para ser acessado.
Este conteúdo, portanto, faz parte da Deep Web.

 

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O mesmo vale para Telegram, para o GoogleDrive, Hotmail, Gmail, Facebook Messenger, enfim: qualquer serviço online que dependa de usuário e senha para acessar.

Indo ainda além, se teu Instagram, por exemplo, for bloqueado, dependendo de aprovação para que vejam suas fotos, ele já passa a ser parte da Deep Web.

Outro imenso baú de conteúdos dessa corresponde a Empresas que, comumente, disponibilizam servidores privados de CRM, ERP ou mesmo IIS em DMZ para a Internet.
O conteúdo desses servidores também está na rede, mas dependendo de VPN ou até simples autenticação para o acesso.
Seria o caso da NASA, que tanto dizem ser acessível na Deep Web,
É verdade: se a NASA tiver um servidor publicado, ele está nela, afinal é acessível, embora dependa de ferramentas.

Até agora, já sabemos que a Deep Web é um ambiente de navegação privativa, dentro da Internet, com bilhões de Intranets semi-públicas, acessíveis por intermédios, certo?

Ótimo.

Assim, considerando que nós mesmos temos Gigas e Gigas de materiais nessa rede, somando-se a Teras e Teras de informações de cada empresa que a utilizam, faz todo sentido que seja um volume tão imenso, comparado à Surface Web.

Porém, e aqui passa a fazer um mínimo sentido o que a lenda urbana diz, há também plataformas privadas não mantidas por corporações como Google, Facebook e afins, com políticas claras e potencial colaboração com a justiça, como a rede TOR.

TOR (The Onion Router) – não, não é o filho de Odin – é uma plataforma em esquema de software livre, onde qualquer desenvolvedor pode manipular o código, não proprietário, com liberdade absoluta que, visando garantir também liberdade social, promove anonimato “absoluto“, evitando censuras políticas por meio de privacidade.

Como cabeça vazia é oficina do diabo, e a raça humana não é lá das espécies mais bem desenvolvidas do planeta, o anonimato e privacidade, fortemente promovidos e mantidos pela plataforma, dão brecha para a divulgação e armazenamento de conteúdos ilegais, como materiais pedófilos, de ódio, de todo tipo.

É importante ressaltar que tais materiais podem perfeitamente circular pela Deep Web sem necessidade do TOR ou de qualquer plataforma “incomum” de criptografia.

Por vezes, no Brasil, a Justiça ordenou a inativação da rede do Whatsapp, impedindo todos os usuários de  navegarem na aplicação.
Tal decisão buscou coagir o Facebook, seu proprietário, a colaborar com investigações da Polícia Federal para desmantelo de operações do crime organizado.

É aquilo: posso utilizar um carro para transar, para dormir, para ocultar um cadáver, para sequestrar alguém, para transportar drogas… Posso. Tenho o potencial para tal. Porém, não é por isso que o carro perde sua natureza e finalidade primeira, que é a locomoção.

 

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Quando pessoas utilizam a rede mundial para finalidades torpes, não é a rede que é perversa. A finalidade primária continua sendo disponibilidade, confiabilidade e confidencialidade dos dados e informações que transitarão nela.

É um erro juvenil e até estúpido desejar que modelos confidenciais de tráfego de dados não existam.
Imagine que absurdo e caótico que tudo que “somos” online seja público. Privacidade é um elemento necessário mesmo na mais básica comunicação humana, que é a fala.

Que há a possibilidade de cometer crimes na rede, há. Tanto na Surface quanto na Deep Web.
Que tal se torna mais confortável quando há privacidade, fato.
Que plataformas como TOR tornam tais atitudes ainda mais “seguras“, óbvio.
Mas que a deformação de caráter de parte dos usuários torne um modelo abominável, isso não.

Quando demonizamos soluções, especialmente assim, sem qualquer relação com a realidade, indiretamente facilitamos a vida dos perversos que as corrompem.

TOR, e todos os que por ele trabalham, são responsáveis por canais de informação em países com censura política, como Emirados Árabes Unidos, Irã, Síria, Cuba, Coreia do Norte, China; responsáveis por vias de difusão de escândalos Políticos e Corporativos, como Wikileaks, de Assange, que denuncia há anos manobras atrozes e diabólicas de países como os Estados Unidos da América, que espionam e sabotam mesmo seus “aliados“.

É importante repudiar e acusar as abominações humanas, mas é mandatório lembrar que não há pedofilia porque há uma Deep Web. Há pedofilia porque há pedófilos, unicamente.

Precisamos crescer, enquanto espécie. Precisamos passar a compreender corretamente a natureza das coisas, para termos ideias claras a respeito.
Mais ainda, precisamos parar de alienar culpas de nossa monstruosidade.

Não é o reconhecimento de uma doença o primeiro passo para o tratamento?
Pois, que nos seja.

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