idiota
 

Sonhos idiotas…

Me apaixonei por você, e, imediatamente, te fiz coisa para uso do meu belprazer.

E, sentindo-me destinatário de sua paixão, não pude não entender-me coisa p’ro seu.

Pois não é, afinal, apaixonar-se o definir a outro coisa e objeto?

No entanto, temo ser singela e profunda a afirmação de que amor é produto de construção, e de que prédio de mau alicerce despenca.

Entenda-se bem o que digo: não há forma de aproximar-se que não contenha, em si, a necessidade de tirar algo de outro, nem que seja de modo espiritual. É normal… Ainda somos animais, e, por mais que quiséssemos, não cabe a nós a sublimidade absurda que o amor de todo singelo poderia entregar.

Porém, como antes me ria, ao me ver apaixonado, hoje sinto um profundo pesar, tanto quando oferto quanto quando recebo, já que, sendo paixão um ato inegável de objetificação do outro alguém, é impuro, daninho e feio.

E como se faz, nesse estado de reprovar profundamente esse entender da paixão?!

Fica-se, então, preso à busca do amor pelo amor, mas amor por amor não vinga, já que o modo todo de alcançar depende do vil querer.

Ser assim, eu afirmo, é morrer metadinha por dia, numa sina de sempre ter, nunca querer, (e já) nunca ter.

Ser assim, eu garanto, liberta e oferta a tranquilidade de nunca tomar nada de ninguém, enquanto apunhala com o espanto de ver-se nunca capaz de, também, receber.

É claro que ao uno completo nada falta, e não seria, já, necessária a tomada do bem alheio… Mas quem, ora, seria completo?!

É incerto propor qualquer exemplo, ainda que seja o próprio, já que nunca vi ser humano que, um pouco, se entendesse.

Anseio, não minto, ver-me e ver, em ambos, tal capacidade de profunda sinceridade de afirmar o que dá pelo que pede. Mas sinto que isso não seria coisa capaz de ser feita nesse pedaço redondo de terra da ambição, onde coração nenhum que veja a vida simples desse modo fosse capaz de ver-se em casa.

Não, não acredito. Só reflito mesmo, já incapaz de fazer diferente, crente que o mito da mente um dia dissipe, e, enfim liberto, num lugar mais certo, possa, por fim, descoisar minhas ideias e plantar as sementes que carrego.

Sonhos idiotas…

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