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Rapsodia, de Bocelli, e a nunca quista despedida

Quando uma canção, em sua sofisticada simplicidade, diz tudo o que você precisa, embora, talvez, não queira ouvir, o mais correto é fechar os olhos e aprender, nas entrelinhas de sua escala, nos compassos, nas notas, nas palavras, o que ela tem a ensinar.
Uma análise, embora subjetiva, da espetacular obra de Andrea Bocelli “Rapsodia”, de seu álbum “Romanza”, em uma reflexão acerca do fim da vida.

“Eu gostaria de te libertar amanhã, pela manhã… E gostaria te ver voar sobre as montanhas nevadas, como antes… Você, assim, tão distante, ao mesmo tempo tão perto! E a alma vai-se, através da eternidade!”. Com esse verso profundo, de absurda sinceridade, imerso em amor puro e um sutil apego humano, inicia Andrea Bocelli sua, talvez, mais tocante peça, mais emocionada e emocionante, “Rapsodia”.

Trata-se de uma composição simples, de repetição e familiaridade, produzindo um senso de intimidade, de conforto, que motiva o ouvinte a sentir-se acolhido, protegido. O teclado eletrônico, ao efeito de “strings”, suporta e sustenta a frase do piano, que imita, docemente, a frase vocal. Um maravilhoso exemplo de simplicidade intencional, repleta de sofisticação.

A letra, de poucos versos, traz um assunto incomum: a libertação de uma alma. O desapego, tão estranho aos homens perante a, talvez, mais cruel realidade à qual nosso espírito esteja condenado: a separação indesejada, a nunca quista despedida, a morte.

A Morte, a senhora esquelética, vestindo longo traje negro, cabeça coberta e foice, segue sua própria lei. Não respeita idade, credo, cor, moralidade, mérito, bens ou conquistas. Segue sua própria e peculiar ética, ininteligível. Vem e ceifa, sem pudor, sem perguntar se é avô, ou avó, pai, mãe, irmão, irmã, filho ou filha… A ela não importa. Vem e ceifa, sem pudor.

É assustadora, a tal senhora, especialmente por seu critério misterioso. Apavora, desde sempre, a humanidade. Provoca questionamentos, aflições, angústias de infindáveis espécies.

No entanto, quem teme o momento da morte, em si? Olhando de perto, ninguém! Ela aparenta ser um instante, o qual nem em segundos me atreveria mensurar. Talvez nem leve tanto! Talvez nem se sinta! Não temos medo “da morte”. Tememos mais o “fim da vida”, o pavor de entender que não haverá o depois, o amanhã. O que não fiz, não farei! O que não realizei, nunca hei de fazer! E o quê vem agora?! Será que fui bom ou mau?! E a dívida que não paguei?! E o crime que não compensei?!

Não tememos a morte, em si. Tememos o que vem. O débito pendente. Sofremos por achar que éramos eternos, e que o amanhã sempre estaria lá.

 

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Mas, e quando crescemos, verdadeiramente? E quando já aprendemos que esse controle não existe, que a vida é um dom, que “não somos mas estamos”, como disseram o velho Heráclito e o menos velho Chico Buarque? E quando gozamos do hoje, e nada fica para amanhã? E quando não deixamos dívidas, experimentando e vivendo, nem cogitando esse tal amanhã? Por que, ainda, Golpista a realidade da morte?

A resposta talvez Renato Russo tenha dado, dizendo que “os bons morrem jovens…”. Nós, pobres humanos, para alcançar tal estado de desapego do futuro, necessariamente nos tornamos maus: desistimos das normas humanas, escandalizamos a maioria, quebramos regras e etiquetas que nunca deveríamos ter quebrado. Fomos tão estranhos ao conveniente, socialmente instituído, que nos tornamos cruéis e irresponsáveis. E isso, necessariamente, nos faz maus.

Aí vem o conflito da premissa com as constatações: os bons morrem jovens, mas não somos bons… Logo, por lógica, estamos obrigados a assistir os amados morrerem, enquanto encurvamos, sofrendo, perda a perda, as dolorosas despedidas.

E qual seria, entre os possíveis temores, o maior? Eu te digo: o medo de ficar. Ficar significa acordar num mundo sem o ser amado, apagar todos os projetos, engavetar, engolir que tudo que fica são frios souvenires de um tempo maravilhoso, lembranças de um passado tão passado, num instante, num sopro, que jamais voltarão a se repetir. A dor da constatação de que nunca haverá a chance de uma despedida, um último abraço, um último beijo, o último “eu te amo”… Arrumar as coisas, enfrentar a tortura burocrática, como se ser ignorado pela foice não doesse já o suficiente. A dor de ter que seguir em frente, custe o que custar.

 

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Se não fôssemos humanos talvez entenderíamos a justiça implícita na lógica obscura da morte. Mas somos! E longe de compreender que encerra-se um ciclo para que outros comecem, nos apegamos à fantasia, e à não-aceitação do fim forçado do amor… Um fim que sequer possui o consolo de que o outro tenha querido. Um fim incontrolável, incontestável, irreversível…

Prendemos a pobre alma ceifada com correntes indestrutíveis de apego e saudade mórbida, e noites de lágrimas e desejo infantil de querer o que já não se pode! E, longe de ser por maldade, o fazemos por apego.

E como, em profunda piedade, deve a alma sofrer calada, assistindo ao martírio do amante largado, querendo o impossível…

E canta Bocelli que gostaria de deixá-la livre na manhã seguinte… Mas onde haveriam de estar as forças para cortas os laços?! Como poderia o pobre amante libertar-se do inferno do impossível-querer, duplamente impossível, pois quer de volta, mesmo sabendo nunca ter, e quer livrar, ainda que não seja capaz…

E adoraria, a alma, voar para a eternidade, se visse a si livre da âncora do amor mundano, do apego.

Não afirmaria como certo, mas aspiro ser possível, que algum dia eu a libertarei do meu cruel apego, e assistirei, regozijante, o vôo incontrolável pelo cume de montes nevados, livre, como a libertação de sua pequena e frágil forma física a permitira desde a despedida, mas foi atada por mim, ainda que sem maldade, mas cruelmente… E juro, assistirei sua alma cruzar a fronteira, através da eternidade. E nesse dia eu direi, sem qualquer dor ou lágrima: adeus, amor. Descanse em paz…

P.S.: que todos nossos amores roubados voem pela eternidade, e nossos corações, livres de apego, encontrem paz.

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