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Quem é Jesus Cristo? – A relativização do culto cristão (parte II)

“É uma prática ampla o esvaziamento intencional e tendencioso de um sistema ideológico. Especialmente quando os principais beneficiários desse são seus legisladores.”

Na primeira parte desta série (veja clicando aqui), fiz uma rápida explanação sobre a natureza do Cristianismo, enquanto levantei breves pontos de importância na contextualização do nascimento deste sistema.

Conclui tal apontando um trecho que será o norte na bússola desta crítica, onde, segundo a escola do Apóstolo Matheus, Jesus ordena que nada na Torah seja alterado ou desprezado, uma vez que trata-se de uma manifestação do próprio Deus que, teologicamente falando, é necessariamente imutável (já que, mudando, perderia o caráter divino).

Apenas contextualizando, a Torah (ou Pentateuco) corresponde aos cinco primeiro livros do cânon compartilhado entre judeus e a grande maioria dos cristãos, sendo:

Bereshit (do hebraico “No princípio”), ou Gênesis (do grego “A origem”): a narrativa da criação do mundo, o desligamento entre Deus e a humanidade, as primeiras organizações sociais, as manifestações divinas para os primeiros grandes Patriarcas, culminando no estabelecimento do povo de Deus no Egito;

Shemot (do hebraico “Estes os nomes”), ou Êxodo (do latim “Fuga“): os impropérios do povo de Deus no Egito, sob o jugo do Faraó; a decisão divina de manifestar-se e abraçar Moisés como seu pontífice; a fuga para o deserto.

Vayikrá (do hebraico “E chamou”), ou Levítico (do grego “Livro dos Levitas”): a definição da liturgia destinada especificamente para os sacerdotes, na aliança.

Bamidbar (do hebraico “No deserto”), ou Números (do latim): a peregrinação do povo escolhido no deserto, por quarenta anos, para purgar a adoração do bezerro de ouro durante a ausência de Moisés.

Devarim (do hebraico “Palavras”), ou Deuteronômio (do grego “Lei repetida”): discurso mosaico sobre o temor de deus, reafirmando o caráter pétreo das definições de culto e moral, ditadas por Deus.

Torah, para que não haja a dúvida, é a Lei judaica, definida por Deus e transmitida como doutrina durante séculos, até a trascrição final e canonização.

É importante ressaltar que tal compêndio é de leitura pesadíssima, monótona e, consequentemente, quase interminável. Tais caracteres favorecem a ignorância absoluta sobre seu conteúdo por parte dos leigos, servindo de pasto fértil para a manipulação por parte dos “pastores” e do clero.

 

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A canonicidade do compêndio é inegável, apesar da impossibilidade de datação precisa, a errônea atribuição autoral a Moisés e a abundância de lacunas, por corrupção de pergaminhos.

O cristianismo recebeu a Torah pela Septuaginta, e manteve, na estrutura do Antigo Testamento (todo adotado do judaísmo), ao definir o Cânon total, no Concílio de Hipona.

(Nota: embora a definição de cânones seja um assunto incrivelmente complexo e fator de complicação, não é absolutamente relevante para a discussão, uma vez que, para o cristianismo, o Espírito Santo inspirou tanto a escrita dos livros quanto a definição dos compêndios.)

Agora, já tendo um entendimento mais aprofundado sobre o caráter específico da Lei, mencionada por Jesus no texto da escola de Matheus, precisamos conflitar definições categóricas desta com o modus operandi cristão contemporâneo, para, assim, encontrarmos as discrepâncias.
Uma vez definidas, passaremos a considerar as tentativas de justificação das decisões (e seu consequente absurdo).

Para tal, revisitemos passagens da Torah, especialmente do livro que a encerra, o Deuteronômio:

(Embora fique massante, me sinto na obrigação de replicar ao menos o texto da Vulgata, já que qualquer possível utilização de textos em português é potencialmente falha.)


  • Sobre comer carne suína:

“et suem, qui, cum ungulam plene dividat, non ruminat.
Horum carnibus non vescemini nec cadavera contingetis, quia immunda sunt vobis”
(Liber Leviticus 11:7-8)

“e o porco que, com casco totalmente fendido, não rumina.
Não comereis das suas carnes nem tocareis seus cadáveres, pois impuros são para vós.”
(Lv 11:7-8)


  • Sobre comer frutos do mar:

“Quidquid autem pinnulas et squamas non habet, reptilium vel quorumlibet aliorum animalium, quae in aquis moventur, abominabile vobis
et execrandum erit; carnes eorum non comedetis et morticina vitabitis.”
(Liber Leviticus 11:10-11)

“Seja o que for que não tenha barbatanas e escamas, rastejante ou qualquer outro animal, que mova-se na água, será abominável a vós
e execráveis sereis; não comais suas carnes e eviteis as carcaças.”
(Lv 11:10-11)


  • Sobre zootecnia, agricultura e vestimentas:

“Leges meas custodite.
Iumenta tua non facies coire cum alterius generis animantibus. Agrum tuum non seres diverso semine. Veste, quae ex duobus texta est, non indueris.”
(Liber Leviticus 19:19)

“Guarde minhas Leis.
Não deixe tua jumenta cruzar com animais de outros espécies. Não plante sementes diferentes em teus campos. Não use vestes que são feitas de dois tecidos.”
(Lv 19:19)


  • Sobre cortes de cabelo e barba:

“Neque in rotundum attondebitis marginem comae nec truncabis barbam.”
(Liber Leviticus 19:27)

“Nem corte arredondadas as margens do cabelo nem desfigure a barba.”
(Lv 19:27)


  • Sobre tatuagens:

“Et super mortuo non incidetis carnem vestram neque figuras aliquas in cute incidetis vobis. Ego Dominus.”
(Liber Leviticus 19:28)

“E não cortareis vossas carnes pelos mortos nem fareis quaisquer imagens em vossas peles. Eu, o Senhor.”
(Lv 19:28)


 

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  • Sobre homossexualidade:

“Qui dormierit cum masculo coitu femineo, uterque operatus est nefas, morte moriantur: sit sanguis eorum super eos.”
(Liber Leviticus 20:13)

“Aquele que dormir com homem como se fosse uma mulher, ambos agiram de forma abominável, por tal morram: esteja seu sangue sobre eles.”
(Lv 20:13)


  • Sobre esforços no Sábado:

“Dixitque Dominus ad Moysen: ‘Morte moriatur homo iste; obruat eum lapidibus omnis turba extra castra’.”
(Liber Numeri 15:35)

“Deus disse o seguinte a Moisés: ‘Que este homem seja morto; seja apedrejado por toda a multidão fora do acampamento’.”
(Nm 15:35) – ao encontrarem um homem apanhando lenha no Sábado (Lev 15:32).


  • Sobre virgindade e núpcias:

“Quod si verum est, quod obicit, et non est in puella inventa virginitas,
educent eam ad fores domus patris sui, et lapidibus obruent viri civitatis eius, et morietur, quoniam fecit nefas in Israel, ut fornicaretur in domo patris sui; et auferes malum de medio tui.”
(Liber Deuteronomii 22:20-21)

“Se for verdade, que negligencieis, e na moça não houver virgindade, levem-na para fora da casa de seu pai, e cubram-na de pedras todos os homens da cidade, e que morra, já que cometeu abominações em Israel, fornicando na cada de seu pai; e tire o mal do meio de ti.”
(Dt 22:20-21)


  • Sobre estupros:

“Si invenerit vir puellam virginem, quae non habet sponsum, et apprehendens concubuerit cum ea, et res ad iudicium venerit,
dabit, qui dormivit cum ea, patri puellae quinquaginta siclos argenti et habebit eam uxorem, quia humiliavit illam: non poterit dimittere eam cunctis diebus vitae suae.”
(Liber Deuteronomii 22:28-29)

“Se achares uma moça virgem, que não possui marido, e forçadamente unir-se a ela, e à justiça forem encaminhados, dê, aquele que com ela dormiu, ao pai da moça cinquenta moedas de prata e tome-a por esposa, pois humilhou-o: esse não poderá devolvê-la durante todos os dias de sua vida.”
(Dt 22:28-29)


 

Todos estes trechos selecionados permanecem idênticos, independentemente da extensão contextual na qual estejam inseridos (considerando-se, obviamente, as alterações provocadas pela tradução).
Referem-se a ordens categóricas, dadas, segundo a fé judaica e cristã, pelo próprio Deus por meio de Moisés.
Ao final do vigésimo sétimo capítulo do livro do Deuteronômio, Deus manda que todo o povo repita que qualquer um que não obedeça essas leis é maldito.

Neste momento, recordemos o trecho do Evangelho segundo Matheus, apontado na primeira parte do artigo:

“Ninguém coloque que vim diluir à Lei e aos Profetas; não vim diluir, mas cumprir.
Eis que digo a vós: Até que passem céu e terra, ‘i’ ou til algum será retirado da Lei, até que tudo se cumpra.” (Mt 5: 17-18)

Chamo a atenção a um termo que, por contextualização, preferi traduzir de uma forma específica.
Para amenizar qualquer grande diferença, vou utilizar duas outras formas de tradução para o português (apresentadas em versões genéricas protestantes):

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.

“Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.
Digo a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra.”

Defendo que utilizei o “diluir” como tradução para o “solvere” latino uma vez que a tradução literal deste termo apresenta-se como “liberar”, num sentido de afrouxamento, e não de anulação, como “destruir” e “abolir” dão a entender.

 

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O que precisamos perceber sendo unânime é o elemento condicional para qualquer mínima alteração na Lei: o “até que céu e terra passem”.

Muitas leituras, principalmente pentecostais, afirmam que a morte de Jesus venceu o pecado, renovando a face da terra.
No entanto, se considerarmos que, no Evangelho segundo João (tido como o mais perfeito, do ponto de vista teológico), Jesus afirma que apenas aqueles a quem os discípulos perdoarem os pecados serão de fato perdoados (vide Jo 20:23), como seria possível que houvesse novos pecados se o “mundo” (o ambiente pecaminoso) já tivesse sido abolido?

Ora, fica óbvio que não foi.
Passagens que dão a entender que basta a fé para a salvação são aniquiladas por alegações de que a fé sem obras (atitudes) é vazia, reforçando que a imitação do Cristo seria a única possível forma de salvação, e que o perdão pelos Apóstolos ficaria apenas como um condicional para aqueles que se desviassem.

O livro do Apocalipse mesmo (por mais alegórico que seja) deixa claro que tais apenas “passarão” numa segunda vinda gloriosa do Messias.

No entanto, há linhas e linhas que buscam teorias (algumas bastante absurdas) para facilitar a aquisição de seguidores, como as de ideologia de prosperidade (URD e afins).

Outros, ainda, aliviam a existência do Antigo Testamento na afirmação de Saulo de Tarso (Paulo) aos Coríntios, ao dizer que a Páscoa não mais deveria ser celebrada nos antigos moldes, uma vez que Cristo era a nova e sua (1 Co 5:7).

Seja por inocência ou mesmo por malícia, sempre que revisitamos o dogma da ação direta do Espírito Santo na inspiração dos livros que compõem o cânon, é inegável a permanência da obrigatoriedade da manutenção da Torah no Cristianismo, se este deseja mesmo produzir “alter Christi”, como o próprio nome já diz.

Poderíamos questionar tal sob a óptica protestante, uma vez que a autoridade papal é ignorada (enquanto é dogmática no Catolicismo, especialmente Apostólico Romano), mas, neste caso, seria absurdo que considerassem a Bíblia como Palavra de Deus, uma vez que nunca teriam-na recebido sem admitir a inspiração e manifestação dos textos aos judeus (no que cabe ao Antigo Testamento) e aos cristãos primitivos (que originaram a Igreja Católica).

Sendo assim, como é possível que exista alguma instituição cristã correta, que esteja realmente promovendo o cristianismo?

Por qual diabo elementos como a homossexualidade (cientificamente entendida como um comportamento naturalmente humano) continuam sendo tratados como “abominação”, baseando-se na Torah (como apontei acima) mesmo aos Sábados, durante churrascos forrados de linguiças e bacon, por homens de penteados diversos, de cavanhaques, acompanhados de mulheres solteiras e sexualmente ativas, vestidos de jeans e camisetas, todos grasnando o quão cristãos são e o quanto são povo escolhido de Deus?

Quer dizer, qual razão lógica permite conveniências na manutenção ou diluição do que foi mandado (segundo creem) por Deus?!

E eu mesmo respondo, utilizando palavras deles mesmos:
São outros tempos“. Este aqui, por exemplo, é o tempo da hipocrisia.

É como Marx dizia: “A religião é o ópio do povo“.
A larica que esse promove é a de cuidar das vidas alheias, para ajudar a esquecer-se dos próprios abismos; de quão monstruosa, cruel e manipuladora é a instituição que tanto se vangloria de promover o puro amor, abafando sua real natureza histórica de controle e dominação hegemônica.

Definitivamente, eles continuam não sabendo o que fazem… Chuto que, também, não estão lá dispostos a descobrir.

Se eu te engano, usando de sua ignorância, a culpa é minha.
Mas se você permite que te enganem, então torna-se o único responsável.

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