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Quem é Jesus Cristo? – A relativização do culto cristão (parte I)

Figura histórica, embora sem qualquer suporte histórico, seu nome levou um Império a governar o mundo e, hoje, pouquíssimos seres humanos o desconhecem.
Quem, afinal, foi Jesus Cristo?

Sabe os Beatles? Provavelmente a maior banda de rock ‘n’ roll de todos os tempos?
Quem nunca ouviu falar de John, Paul, George e Ringo?
Pois é: gente p’ra caralho.

Embora o mundo esteja parcialmente globalizado, seja por acesso reduzido à rede mundial de computadores, por impossibilidade geográfica de comunicação ou mesmo por rechaço à civilização como conhecemos, muitos povos vivem alienados da modernidade, assumindo uma cultura completamente paralela à nossa.

Sejam tribos remotas da Amazônia, povos isolados nos confins da China, ermitões por escolha, beduínos ou povos dos desertos, alguns ainda vivem suas vidas completamente apartados do mundo contemporâneo, tendo sua própria cultura, idioma, religião. Vivem numa dimensão paralela, ainda que vivam nessa.

Os Beatles, talvez as pessoas mais conhecidas dos últimos tempos, são nada senão absolutamente nada nessas mentes.
No mundo globalizado, com 24/7 de informação disponível no bolso da calça, muitos desconhecem absolutamente quem são.

Com isso podemos nos questionar: que tipo de relevância histórica é necessária para que alguém seja objeto de conhecimento relativamente profundo por quase todos os cidadãos da Terra?
Pois bem: relevância p’ra caralho.

Nisso podemos nos questionar: quem é/foi o ser humano mais conhecido do planeta? Por que o é? Como aconteceu isso?

Eis que chegamos a um nome: Jesus, o Cristo judaico.

 

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Jesus, Jesús, Gesu, Jésus, Isus, Jesus Christ, Jezus, Disas, Hesu, Iesu, Iesus, Jesucristo, enfim, cada idioma entendeu o aramaico Yeshua (iêshuah, em transcrição fonética) como bem preferiu.
Seu nome é resultado de uma adaptação de Yehoshua (i’rrôshuah), que em português virou Josué, para diferenciar dois messias divinos na história religiosa dos judeus.

Jesus, segundo o senso comum que produziu a Bíblia, é o filho de deus (YHWH – iavêh em transcrição do hebraico antigo, traduzido muitas vezes ao português como Javé), nascido de Maria (Miriam, também em transcrição fonética), messias de deus para a consolidação de uma nova aliança com Israel, o povo escolhido.

Ele é um ícone de subversão de status quo e de bondade. Uma figura que carrega, segundo a tradição cristã (sua maioria, pelo menos) o caráter de pleno homem e pelo deus, enquanto Verbo divino encarnado (um dia, juro, vou explicar o que é um verbo mental. Pode me cobrar). É o responsável por, hoje, cerca de dois bilhões e pouco de pessoas, no mundo, professarem o cristianismo.

Mesmo sem qualquer suporte histórico (enquanto ciência), Jesus é o ser (real ou produto de fantasia) mais conhecido do planeta, em toda a existência humana. Sua história/estória é propagada no mundo tanto pelo boca-a-boca quanto pelo livro mais lido/vendido/distribuído /impresso/armazenado/ replicado/traduzido do planeta: a Bíblia (mais especificamente no Novo Testamento – compêndio de escritos que narram de seu nascimento, morte e ressurreição, passando por seu legado à visão escatológica do Apocalipse, o fim dos tempos).

Claro que todos já sabiam quem foi Jesus, mas acho importante trazer as informações que apontei há pouco, para tornar o conhecimento produzido pelo senso comum algo mais aprofundado.

Tenho por certo o questionamento de quão pequeno é o suporte histórico científico de sua existência, mas não gostaria de alargar o tema, por desgosto de quem venha a ler e por ter, nesse artigo, outros objetivos muito mais importantes. Apenas pontuo que pouquíssimas foram suas menções históricas extra-bíblicas, tendo como principal expoente Flavio Josefo, historiador judeu com tendências subversivas (o que leva, hoje, a cogitação de sua existência ao campo da teoria científica).

De todo modo, tendo ou não existido Jesus; sendo ou não sendo réplica de Josué, messias do Antigo Testamento; sendo ou não sendo ambos replicações de outros messias solares de outras culturas pagãs anteriores (tais quais Krishna, na Índia; Buda, no extremo Oriente; Hórus, no Egito; Attis, na Antiga Grécia; Dionísio, na Grécia pré-romana; Mitra, na Pérsia; enfim, outros mais de 300 nomes que poderíamos mencionar, espalhados pelo tempo e espaço, todos com elementos em comum como andar sobre águas, transformar água em vinho, nascerem de virgens em 25 de Dezembro, morrerem e ressuscitarem depois de três dias, terem sido acompanhados por doze discípulos e, no caso de Hórus, terem epítetos de “Cordeiro de deus”, “Caminho, verdade e vida” e afins – tudo coisas para trazermos em outro momento -), Jesus ocupa um papel tão importante na história contemporânea que, de forma alguma, podemos ignorar seu nome e caráter.

Os relatos bíblicos de sua passagem pela Terra são os responsáveis pelo nascimento de uma nova ordem mundial: o cristianismo.

Mas o que é cristianismo?

 

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Cristianismo, por etimologia, é um movimento religioso comprometido em replicar o “modus vivendi” de Cristo, o Cordeiro de deus, imolado para perdão dos pecados, tendo como objetivo sua transformação em “alter Christus”, ou seja, outros Cristos, outros Cordeiros de deus.

O movimento nasceu na, digamos, “Grande Jerusalém”, o complexo estrutural judaico dos anos 50d.C., contando com pequenas e perseguidas comunidades clandestinas, incumbidas, pelo próprio Jesus, de “espalharem a Palavra” pelo mundo conhecido e desconhecido.
Uma vez aportada por Saulo de Tarso, conhecido por Paulo, o pequeno, ganhou a Grécia, com sua grande comunidade de judeus e, mais tarde, as graças de Constantino, filho de Helena de Constantinopla, o então Imperador Romano.

Um elemento muito importante é que, depois de perseguições incalculáveis por Roma, após Nero iluminar a cidade com corpos incandescentes de cristãos, Constantino, então exilado no Novo Império, no Oriente (já que os “bárbaros” haviam tomado o controle da Península Itálica), instaurou o cristianismo como religião oficial do Império, matando e proibindo a mitologia herdada da Grécia, bem como todo seu panteão.

Uma vez sendo o Império de Constantinopla cristão, apenas cem anos depois, Roma foi retomada, e a Igreja (ecclesia, ou congregação, em tradução literal) recebeu como presente uma cidadela murada e fortificada, que hoje conhecemos como Vaticano – o que leva muitos a entenderem a assunção do cristianismo como religião oficial do Império apenas uma manobra política de unificação e integração de tudo que esse significava, motivando os povos à luta única.
O Vaticano, hoje símbolo da Igreja, possui suas principais catedrais onde Pedro, o apóstolo, tido como primeiro Pontífice de Cristo, foi crucificado e onde Paulo, o pequeno, apóstolo tardio, foi decapitado.

Sem conspirar, voltando um pouquinho ao que a tradição cristã conta, tendo sido ordenados por Cristo, os apóstolos de fato viajaram o mundo pregando a “Palavra”, ou seja, replicando os ensinamentos desse para o mundo.

Uma anedota interessantíssima (e o principal motivo de eu ter apontado o nome guarani de Jesus, ao indicar sua versão em vários idiomas) é que, catequizando, doutrinando os indígenas brasileiros, José de Anchieta, presbítero e missionário católico, membro da congregação dos jesuítas, ouviu o nome “Çumé” de seus alunos, remetendo imediatamente a uma visita de Tomé, o apóstolo, às Américas muito antes de qualquer grande excursão europeia a essas Terras (antes mesmo de grandes conhecimentos sobre a Beringia).

Muitos desses doze iniciais, e dos posteriormente “ordenados” morreram de forma “exemplar”, constituindo o que a Igreja chama de mártires.

Fato é: uma vez religião Romana, o cristianismo tomou “o mundo” – o que era conhecido até então.

Num cataploft violento, esqueçamos a reorganização mundial pós-Romana e foquemos nos séculos XIV e XV, onde o cristianismo se partiu de forma definitiva, deixando o Catolicismo original (tanto romano, quanto ortodoxo, copta e diversos) e agregando o caráter “Protestante“.

Bom, todo mundo sabe do cisma luterano e, para fluirmos, vamos viajar mais alguns séculos no tempo e chegar aqui, onde pretendo estar para começar o artigo rs.

 

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Pois bem rs. No século XXI, mais especificamente em 2016, nosso ano corrente, o cristianismo possui as seguintes vertentes:
– Catolicismo: podendo ser esse apostólico romano, copta, ortodoxo, lefreviano e afins;
– Protestantismo: podendo ser conservador, como a luterana, a anglicana, a Assembleia de Deus, a presbiteriana, metodista; ou mesmo pentecostal, como Universal do Reino de Deus, Templo das Águias, e todas as da “Teologia da Prosperidade”, que costumam ser abertas onde bares faliram;
– Acidental: qualquer cristão “não praticante”, ou seja, alguém que professe cristianismo mas não participe de nenhuma instituição religiosa baseada nessa ideologia.

Sendo muito sincero, o que chamei de “cristianismo acidental” é o único grupo que louvo e venero, uma vez que, livres de legislação eclesiástica, são capazes de coerência de execução e, consequentemente, tornam-se pessoas muito boas do ponto de vista social. Vivem a “crème de la crème” do que o Jesus “histórico” deixou e, por tal, pregam amor e tolerância.
Meu grande problema é com as instituições, e ouso dizer que não é “meu” grande problema, mas do mundo. E aqui começa o artigo.

Após longos anos de vida eclesiástica, alguns de vida clerical e cerca de uma década de estudo livre, sinto-me completamente idôneo para dizer: o cristianismo institucionalizado é um veneno no mundo, especialmente no Ocidente (onde mais prosperou).

Nasceu, na difusão idiótica do cristianismo, um movimento que quero chamar de “relativização do cristianismo”.
Hoje, sabe-se lá por qual caralho – aliás, sei, e chama-se “medo de perder a boquinha” -, a Igreja busca, novamente, retomar o poder do Estado, especialmente na América do Sul, especialmente no Brasil.

Como falei em “Estado de Espírito – Desconstrução da Laicidade“, uma bancada evangélica, relativamente fundamentalista, busca “alumiar” questões sociais sob a óptica relativizada da Bíblia traduzida ao seu bel prazer.

A Bíblia, apenas mais um livro histórico do mundo – ignorando todo empenho em sua escrita por dúzias de escolas literárias durante cerca de dez mil anos -, não tem, hoje, qualquer potencial de ser utilizada como base de nada.
Trata-se do reflexo fotografado de uma cultura atrasada, nada científica, misticista até a raiz dos dentes, ignorante de muito, classicista e hegemônica.

Esse compêndio de livros, como o próprio nome diz (já que biblia é plural de livro, em latim), é apenas resultado de propaganda de guerra, ou mesmo de prevenção dessas, e, mais tarde, só e tão só ferramenta de controle social.
Qual nível de grosseria intelectual é necessário para assumir isso “verdade inquestionável”? Respondo: ignorância.

A Bíblia não é lida nem por padres, nem por pastores, nem por fieis. A Bíblia não é lida em totalidade. Ela é lida em leitura condicional, tendenciada e, muitas vezes, maliciosa, seja para o pastor transar com a mulher que quiser, seja para o padre viver a porcaria que quiser.

Confesso: coleciono “bloqueios de Facebook” por partes de “teólogos”, mas posso dizer de consciência limpa que não o é por grosseria ou por spam, mas por impossibilidade de resposta. E não, não me gabo. Falo sinceramente porque é assim mesmo, e não é louvor nenhum ver os “pastores” de pobres coitados, que muitas vezes morrem de fome para ofertar seus dízimos, serem incapazes de defender minimamente suas ideias, apelando para a repressão, censura e proibição da palavra.
Penso que, se fosse no passado, já teria sido assado numa caldeira da Inquisição Espanhola, por ser “herético”, ao afirmar que dois e dois não são setenta e cinco nem aqui nem na lua!

E por qual motivo falo de relativização?

Simples: o que está escrito só é considerado se for conveniente. Caso contrário, é tratado como “datado”, como “irrelevante”, ou mesmo nem é tratado.

O ponto mais alto da relativização, e digo isso com experiência ampla e profunda, é o esvaziamento de tudo quanto a Bíblia significa em uma única menção completamente fora de contexto: “Amai-vos uns aos outros“.
Sempre que se cita a Bíblia linguisticamente, a resposta padrão é: “está fora de contexto”, como se ao citar algo fosse necessário colar todos os livros, para fazer sentido.
No entanto, essa lógica não se aplica quando todo o produto do compêndio é resumido, por devidos fins, ao “amor”.

Estranho, não?

 

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E aqui está: o cristianismo foi relativizado ao “amor ao próximo”, enquanto tendenciosamente se anulam as palavras “do próprio” Cristo no Evangelho de Matheus, que dizem (em latim, segundo a Nova Vulgata e, em português, por tradução livre [e minha]):

“Nolite putare quoniam veni solvere Legem aut Prophetas; non veni solvere, sed adimplere.
Amen quippe dico vobis: Donec transeat caelum et terra, iota unum aut unus apex non praeteribit a Lege, donec omnia fiant.” (Evangelium secundum Matthaeum V: XVII-XVIII)

“Ninguém coloque que vim diluir à Lei e aos Profetas; não vim diluir, mas cumprir.
Eis que digo a vós: Até que passem céu e terra, ‘i’ ou til algum será retirado da Lei, até que tudo se cumpra.” (Mt 5: 17-18)

Fica, então, exposta a maior falácia do cristianismo moderno, que busca apagar o inconveniente, mantendo só o que deseja, sangre o mundo tanto quanto sangre, contanto que a boquinha permaneça aberta.

Ao declarar-se “alter Christus“, mantendo e tentando empurrar goelas abaixo a repetição de uma doutrina, onde se torna permissivo “peneirar” o que convém ou não ser respeitado?

Está aí a relativização e, para não tornar isso interminável, continuaremos, num próximo artigo, trazendo à luz do trecho de Matheus o material peneirado.

Entendo estar claro quem foi Jesus e, por consequência, o que é o cristianismo. Exponhamos, assim, o esvaziamento intencional.
Dois mais dois são quatro, não setenta e cinco. E assim há de ser.


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