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Que diabos é Anarquia?

Anarquismo, Anarquia, Anarcotralalá. O conceito aceita muitos nomes, e é sobre isso que devemos tratar se quisermos, verdadeiramente, entender a natureza da ideologia.

Muito se fala em Política nos últimos tempos.
Penso, talvez, que deveria começar falando sobre essa majestosa ciência, em vez de tratar uma única de suas muitíssimas manifestações. Porém, cabeça zuada como a minha não fez questão disso no insight. Não sou eu quem vai matar esse insight. Então, vida que segue.

Entendo desse modo: não fomos criados para ler. Não fomos ensinados senão a ler panfleto, recado, mensagem de texto. Não sabemos ler.
Com isso em mente, não vou me prender a grandes autores ou largas cadeias literárias sobre o tema.

Que tal se trouxéssemos esses diluídos no escrito, não fazendo nenhum explícito? Seria uma boa?

Pois bem. Façamos assim.

Anarquia é um conceito complicadíssimo.
Maculado por movimentos contemporâneos, sejam punks, skinheads, enfim, anarquia perdeu seu significado primário e ganhou um novo: caos.

Mas seria anarquia o caos?

Em sua natureza pura, nunca. É o inverso absoluto disso.

Agora, depois de tais movimentos terem possivelmente deturpado o senso verdadeiro do conceito, posso eu exigir que essa deturpação seja apagada, fazendo que me entendam como eu gostaria?

Não. Não posso.

Dessa forma, que tal se afastássemos um pouco os olhos e, respeitando o falso entendimento, produto sociológico, dividíssemos a coisa única em duas, usando dois termos, um estragado pela História e outro com defesa linguística?

 

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Tentemos:

Anarquia: tendo sido maculado, o termo assumiu o conceito de “caos”. Esqueçamos desse. Pensemos nesse outro, que segue;
Anarquismo: e façamos a explicação.

Tudo que leva “-ismo” no nome possui poucas flexões conceituais possíveis.

Ismo” é um sufixo (terminação modular de uma palavra) que representa doençasespecialmente ligadas a comportamento – (bruxismo, alcoolismo, tabagismo, sonambulismo, cristianismo, etc.), práticas esportivas (atletismo, hipismo e afins), movimentos sócio-culturais, como ideologias, sistemas políticos, linguísticos, filosóficos, artísticos, científicos, econômicos, etc. ([ideologias: materialismo, classicismo, estruturalismo, pragmatismo, etc.] [sistemas políticos: marxismo, comunismo, liberalismo, conservadorismo, mutualismo, populismo, fascismo, etc.] [sis. linguísticos e artísticos: romantismo, arcadismo, helenismo, modernismo, etc.] [filosóficos: materialismo, existencialismo, platonismo, realismo, etc.] e assim vai) e pensamentos religiosos.

Esse sufixo, portanto, retiraria nosso falso entendimento de anarquia como caos e, automaticamente, teria que enclausurar o termo dentro de um dos possíveis significados. Adotemos, portanto ideologia ou, porque não, sistema político.

Sendo assim, não mais falaremos “anarquia” aqui, mas “Anarquismo“. Concentremo-nos nesse.

Anarquismo, como sistema político, é tão velho quanto o mundo. As primeiras organizações sociais humanas precisaram ser anárquicas para existir.

Como falamos no tratado “Ensaio sobre a maldade“, a hegemonia foi responsável por sua extinção mesmo na pré-História, já que alguns viram meios de adquirir vantagem com a supremacia como ferramenta.

Esse Anarquismo, em seu sentido mais puro, provavelmente esteve adormecido no mundo desde a fortaleza das grandes hegemonias até a revolução de pensamento grega, estando em tratados filosóficos, em forma embrionária, mas sempre, na História, sendo revisitado como utopia.

Na grande revolução política do século XX, o Anarquismo renasceu, dando força e forma à ideia, criando a ideologia e, mais tarde, o levante em, novamente, sistema político (prometi não citar grandes nomes, mas, para curiosidade, que Mikhail Bakunin seja honrado aqui).

Mas que diabos é o tal Anarquismo enquanto ideologia e sistema político?

Pois bem. O Anarquismo se baseia em elementos simples como a autogestão, a ausência de fatores reguladores numa organização social, coletivismo absoluto na produção, a ausência de castas e, principalmente, o repúdio à institucionalização de poderes (Estado, religião, corporativismo, lideranças e sectarizações).

Temo que seja possível entender o “Anarquismo” sob duas ópticas, e valeria discorrer sobre elas:

Como maravilhosamente explicou Davi Bottini em “Cinquenta Tons de Centro“, o posicionamento de ideologias e sistemas políticos se faz considerando dois eixos, num gráfico cartesiano: horizontal, contendo coletivo e individual, e vertical contendo autoridade e colapso.

É uma falha muito comum considerar o tamanho do Estado, seu poder de influência sobre uma sociedade, para determinar se algo é Direita (quando menor) ou Esquerda (quando maior). Embora seja comum, é um erro terrível.

 

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Mesmo utilizando métrica adequada é possível, ainda, confundir-se, afinal o Libertarismo, que é individualista e sem Estado, seria, sob certo ponto de vista, uma Anarquia, no entanto é uma abominação, enquanto versa sobre o individual, ignorando, basicamente, o coletivo, próprio e natural da Anarquia.

Desse modo, o correto historicamente falando é posicionar o Anarquismo como sistema político de Extrema-Esquerda (diferentemente do Libertarismo, que é Extrema-Direita), uma vez que absolutamente coletivista e com Estado absolutamente colapsado.

Temos, portanto, um sistema político sem lideranças instituídas, senão as lideranças naturais (falaremos sobre isso num próximo artigo), sem institucionalização religiosa (uma vez que religião é relação um com um, como falamos em “Ensaio sobre a verdadeira Religião“), sem patrimônios privados e detenções individuais de meios de produção, sem Economia monetária (já que atribuição de valores não faz sentido quando toda a produção é orientada ao coletivo), sem controle, sem desigualdade, sem barreiras nacionais e comércios delicados, sem emprego, apenas esforço de trabalho orientado para o todo. É uma forma comunista e coletivista de compreensão da sociedade humana.

Agora, não é já consenso ser o Anarquismo uma utopia?

Pois, sim. É utopia, bem como todo e qualquer sistema político ou ideológico apresentado ao mundo até hoje.

Defendo:

Utopia é qualquer pensamento irrealizável.

Ué! Mas temos muitos sistemas políticos e ideológicos em prática hoje! Como pode dizer que são utópicos?!

Aha sim, posso. Vejamos:

Capitalismo: o valor de recurso é virtualizado para o valor de moeda. Assim, você pode oferecer serviços, que não têm peso ou medida, como farinha, milho, petróleo e, mesmo assim, ser capaz de trocas, essas baseadas na moeda.
E como isso é utópico?
Simples: o capital, ou moeda, ou poder de aquisição no Capitalismo atual é dividido de forma que 1% da população possui 50% desse capital e outros 50% estão distribuídos entre os 99% de população que sobra.
Não é isso uma quimera?!
Sendo quimera, não enquadra uma utopia?
Bem vindos ao mundo moderno.

Socialismo (vivido em Cuba, Coreia do Norte, extinto na URSS): o proletariado é dono de tudo, mas o Estado é quem gere e distribui.
Utopia. O Estado só é uma instituição idônea quando composto por pessoas idôneas. Nunca vimos aplicado de forma adequada.
O Socialismo teórico garante que tudo seria dividido pelo Estado de forma a permitir qualidade à vida de todos os geridos por esse.
Outra quimera. Outra utopia.

Liberalismo: melhor a oferta, maior chance de sucesso. Promove a competitividade e, assim, faz que ninguém jamais se acomode em seu potencial, buscando sempre o melhor produto pelo melhor preço.
Acontece que existem monopólios reais e virtuais no planeta. Se você abre uma mercearia e, ao lado, um Walmart é construído, você automaticamente se vê esmagado pelo poder de barganha do gigante, não podendo competir, falindo e morrendo de fome.
Esse poder de barganha do gigante comercial aniquila qualquer concorrente médio, pequeno e familiar, escravizando tanto compradores quanto empreendedores a usufruir seus serviços.
Mais quimera. Mais utopia.

Meritocracia: maior o esforço, maior o potencial de sucesso e, portanto, maior a recompensa.
No entanto, ignora que os starts não estão no 0, mas variam entre o -50 e o +500. O filho do gigante comercial já nasce bilionário, enquanto o filho do favelado precisa trabalhar para comer ainda na infância.
Quimera. Utopia.

Poderíamos seguir, aqui, desenhando os absurdos de cada possível sistema político já imaginado, chegando, em todos, à conclusão de utopia, porém não acho já que faça falta. Tratemos do cerne, do Anarquismo.

 

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Anarquismo é sim outra utopia, como todos. No entanto, olhe que engraçado: o Anarquismo é utópico porque depende de um único elemento, que o torna impraticável. Esse elemento se chama “natureza humana“.

Enquanto todos os possíveis sistemas políticos dependem de habilidades inumanas, o Anarquismo depende única e exclusivamente da concretização de nosso papel no planeta.

Chamar o Anarquismo de utópico é algo tão grosseiro quanto dizer ser impossível que formigas formem um formigueiro, que abelhas produzam mel ou que hipopótamos se defendam de crocodilos.
Para o Anarquismo ser entendido como utópico, precisamos pensar em joões-de-barro incapazes de montar suas casinhas nos troncos, ou em lobos que não queiram cumprir seu papel na matilha.

Parece sensato?

Pense nas formigas, ou mesmo nos cupins e abelhas, sem sua colônia. Como viveriam? Não é, pois, natural a esses formá-las?
Pense num hipopótamo fêmea que se deite sozinho com seu filhote no leito de um rio. Não é, já, pedir que um crocodilo leve o filhote para o jantar?
Não se baseia todo o sucesso migratório lupino na organização em Alpha, Deltas, Zetas e Betas, e, na caça, no ataque em cerco?

Não estão impressos todos esses comportamentos na natureza mesma desses animais, em sua essência mais primitiva possível?

E não são humanos apenas outra espécie animal vagando sobre a Terra?

Quem nos incutiu o senso de superioridade senão a hegemonia? Não foi a religião que nos fez “filhos de deus”, enquanto todos os outros seres são produto ou criatura desse?

Incansavelmente, no decurso da História, não foi defendido ser o homem um ser social, muito mais que intelectual? Um ser cívico, que sozinho enlouquece?

 

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Pois bem, o Anarquismo depende única e exclusivamente de que as formigas humanas entendam-se agentes do formigueiro, mas um formigueiro especial, onde todos são conscientes de seus papéis para a manutenção da colônia.

E você poderia me perguntar: mas não há Rainhas nos formigueiros?
Poxa, claro que sim. No entanto não são essas serviçais de todas tanto quanto todas são serviçais dessa? Haveria formigueiro sem os ovos da Rainha? Haveria Rainha sem a defesa das demais?

Tudo dito, não posso ser leviano, deixando de apontar uma realidade muito presente, que altera toda a naturalidade pedida pelo Anarquismo: nós nos desviamos (como contou Charles Chaplin em seu discurso no filme “O Grande Ditador“). Nós nos permitimos quebrar nossos códigos de consciência, romper com as inclinações naturais, esquecendo-nos dessa, abraçando a hegemonia, desenvolvendo-nos anatomicamente para lamber nossos próprios umbigos, que deviam ser apenas cicatrizes dos cordões umbilicais, que nos alimentavam na gestação.

Seja pelo que for, nos entendemos hoje como exponencialmente maiores do que somos, e vivemos sob essa régua, que nem é reta, nem mede bosta nenhuma. Seja por deuses, cores, gêneros, cabelos, nacionalidades. Seja pelo que for.

Não vou mentir: vejo um despertar em processo, o fim de uma infância de duzentos mil anos e o início de uma adolescência matadora (como já falei em “Adolescência da Humanidade“), porém não posso não querer que todos se apressem, já que estamos destruindo nosso único e último planeta, e, extintos, jamais poderemos alcançar o que já nascemos prontos para alcançar.

Quando nos entendermos humanos, senhoras e senhores, essa “utopia” não será em nada irrealizável, e nos questionaremos, com lágrimas nos olhos, como e por quê nos atrasamos tanto para fazer algo tão simples quanto abrir esses.

De olhos abertos, iremos sorrir.

Sorrio sabendo, mesmo sabendo que nunca vou ver.

Mas sempre fica a esperança…

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