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Politiziagite!

É uma constatação muito triste: quase ninguém sabe nada sobre Política.
E é ainda mais triste perceber que isso é resultado de algo muito pior: pouquíssimos sabem o que é Política…

Sei que repetição é uma coisa muito chata, mas, escrevendo, normalmente uma ideia fica pendurada aqui, outra ali. No resumo da ópera, já foi dito, porém vale sempre dizer outra vez, contextualizado.

O primeiro de tudo é acusar que o desconhecimento profundo e a demonização dessa ciência milenar, especialmente aqui no Brasil, é um produto histórico.
Antes a Coroa, depois o nepotismo, coronelismo, escândalos de corrupção, culminando numa Ditadura Militar que pregava indevido o debate político (na bala), pegamos nojo de Política, e, como costumo dizer, nunca mais queremos beber algo que nos fez vomitar antes.

Luiza Erundina, estadista incansável, me contou como e quanto a sujeirada que decora a gestão pública afastou pessoas que, antes, militavam. Dessa forma, demonizada, a Política passa a ser ignorada, e a gestão pública veementemente repudiada, alimentando a máxima universal de Platão, o autor de “Republica”, um livro sagrado dessa ciência:

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

Com um desejo profundo de incitar a curiosidade ou, pelo menos, diminuir o asco, convido a uma reflexão tão curta quanto possível, tendo esse tema como recheio do nosso lanchinho.

Política é a ciência da vida de uma comunidade. Ela busca, por meio de ideologias, técnicas e modelos, garantir a harmonia da vida humana em sociedade.

O nome deriva-se do grego “Pólis” (em transcrição fonética), que representa a comunidade, a cidade, em tradução literal.
Essa dá vida ao termo “Pólites“, um genitivo, que remete ao membro da comunidade, o cidadão.

Sendo a Grécia uma democracia prática, onde cada cidadão possuía, de certo modo, poder e voz, nasce um novo termo derivado, que fala a respeito dos realmente interessados pela vida de sua cidade: os “Politikós” (que dá vida ao nosso termo, de grafia quase idêntica).

Um ponto interessante, relacionado a esse termo, é a natureza de seu antônimo, o “Idiótikos” (que deu vida ao termo latim “Idiota“, relacionado ao imbecil – bem como no Português brasileiro).
Idiótikos” era o indivíduo (em seu mais amplo sentido) que buscava seus interesses particulares, ignorando o coletivo e, mesmo, em detrimento desse.

Nessa brincadeira de termos surge nosso assunto: a “Politiká“, a antedita ciência da vida da comunidade.

Nisso, espero já ter ficado claro o objetivo dessa conversa, mas exponho mesmo assim:

Política, meus caros, não diz respeito a Partidos, cargos públicos, modelos de governança, a modelos ideológicos, unicamente.
Ela diz respeito ao modo como vivemos, nos relacionamos, tratamos a harmonização de nossos interesses com os alheios.
Nasce da necessidade da ordem, do respeito às exigências da vida, do carinho com o coletivo, da colaboração para o bem comum.

Uma vez compreendida, então, é momento para navegar a mares mais profundos, buscando entender ideias e práticas que a recheiam.

Parafraseando Chaplin, brutos desalmados nos fizeram enxergar essa magnífica ciência com lentes sujas de seu estrume, para seu próprio benefício.
Precisamos, portanto, usar as barras do vestido da justiça (em seu mais bonito sentido, que é a correção) para limpar essas lentes, compreendendo não só a beleza do que é público, coletivo, como, também, identificando nosso verdadeiro papel no que versa a Política, e nos efeitos de nosso “lavar as mãos“, tal Pilatos.

Como nos ensinou Martin Luther King Jr.:

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”

Dessa forma, jamais silenciemos ou nos abstenhamos do que nos é próprio por direito.

Termino questionando:

E se pessoas honestas ocupassem as cadeiras da gestão pública, em vez dos porcos?


Ps.: Ah, o título é uma brincadeira com “O nome da rosa”, de Umberco Eco, que apresentava o termo “penitenziagite”, que, segundo a personagem principal, tratava-se de “todas as línguas e nenhuma”, como a Política, que nos é tão própria quanto o respirar.

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