olhoselis
 

Os olhos de Elis

A ilustração é um desenho a pena sobre papel pautado. Obra do autor.

Tudo que envolveu Elis sempre provocou fascinação.

Elis não foi uma artista. Elis foi arte! E que puta obra de arte! Maldita! Jeito marrento, fala firme, absurdamente sensual acendendo o cigarro… Sotaque mesclado, mestiço, meio universal. Aquela fala forte, de quem sabe o que diz. Maiêutica danada, de quem confunde ensinando, ensina manipulando, manipula confundindo.

Eu nunca falei com Elis. Eu NUNCA gostaria de falar com Elis! Bruxa! Me tremo e desmonto só em ver Elis falar. Quem dirá falar com Elis… Que martírio!

Elis não foi uma intérprete. Elis foi música, e não só música para os ouvidos, mas música para os olhos… E que olhos! Santo Deus! Mas já falo dos olhos.

Vou falar da voz, gostosa, deliciosa… Envolve, afasta, puxa de volta, arranca suspiros, sorrisos, pedaços… Santo Deus, como pode! Ah, meu Deus, como posso?! Mulher-sereia, que, quando canta, encanta os marinheiros, e arrasta-os pro fundo do mar. Ah, se eu fosse marinheiro…

E fosse bom se só cantasse. Se, no palco, não gritasse, rasgasse, chorasse. E p’ra quê chorar, mulher-sereia?! Como se já não tivesse nos tomado cada fibra do ser, ignora nossa paixão lancinante, lembra do “outro” e chora, copiosamente, ali, no palco, à vista de todos, todos, então, apaixonados, que, agora, querem morrer contigo.

Ah, Elis, essa voz… Quantos romances mortos sangraram ao som da sua voz?! Quantas paixões de primavera floresceram ao seu canto?! Esse canto, que sai tão lindamente, tão suavemente, mas também tão violentamente de sua boca… Essa boca, mãe desse sorriso safado, escultura divina… Mostra os dentes e o mundo perde o sentido, nesses lábios finos. Sorriso de menina marota, aquela que a gente nega mas ama em segredo, e morre de amor. Que medo desse sorriso, desses dentes, e dessa boca, e dessa voz, e desses olhos… Ah, meu Deus, seus olhos…

Duas lâminas afiadas, apontadas, miradas, tão certeiras… Que olhos… Que lâminas! Medusa! Congela! Petrifica! Como eu queria olhar nos seus olhos e continuar vivo, porque como se olha em seus olhos sem ser tragado por esse par de buracos negros, engolindo o universo vizinho?

Seu sorriso já é um desbunde. Mas não contente em sorrir com a boca, sorri com esse par de ônixes, negras pedras preciosas. Seu ser sorri com olhos e boca, e a gente, coitada da gente, acompanha, e sorri de volta, e se perde, e se acha, e se encontra, perdidamente apaixonado, morando, em paz, nesse azul.

Se me atrevo a falar de você, Elis, e você, de onde quer que ouça deseje escutar é: está em nosso corpo feito tatuagem, dando coragem de seguir viagem quando a noite cai, perpetuando-nos em teus escravos, escravos de você que é bonita demais!

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