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Oitos de Março

Lembro-me bem como eram as Sextas-feiras santas na casa de minha mãe.
Sendo, ela, católica, tal tradição estava em sua família há sei lá quanto tempo.

A comemoração da data era realizada num espírito de dor e luto. Nesse dia recorda-se o suplício do Messias cristão.
Não podia-se falar alto; não era adequado brincar; música de jeito nenhum (no máximo o rádio, sintonizado em alguma homilia ou ação litúrgica); jejum e privação de carne, dentro dos limites, eram elementos essenciais.

Digo comemoração no sentido mais adequado do termo: “cum memorare”, do latim, que significa “lembrar juntos”.

Durante quase três décadas de vida, sempre entendi os oito de Março como uma celebração, um festejo. Um dia para sair afirmando como as mulheres são lindas, importantes, macias, cheirosas. Um dia para entregar presentes e sair sorrindo pelas ruas bradando a letra de Elton John, em “Your Song”…

Apenas no primeiro ano da minha terceira década, este, me caiu a ficha de que não é uma celebração, não é um festejo, mas uma comemoração, no sentido exposto, acusando um passado sombrio que segue sendo reproduzido num presente asqueroso.

Entendo tal, e apenas entendendo pela indução das acusações dos últimos anos, começo a colocar as Sextas santas e os oito de março no mesmo caráter eventual: o convite ao exame de consciência, o memento malis, que resulte em sincera contrição e ânsia de pronta emenda.

Hoje não desejei um “feliz dia”, não elogiei, nem vou.
Preferi ocupar minhas horas recordando meus pecados, trazendo vívidos à imaginação, para sentir verdadeiro remorso, me banhar na culpa, deixando empapar os meus poros.
Quis reviver cada momento onde o monstro, da cena de terror, fui eu. Cada vez que incorporei e me posicionei como um pesadelo na vida de uma mulher…

Dá vontade de dizer que “todo homem” nalgum dia já foi esse monstro, uns mais, outros menos. Dá.
E dá essa vontade porque, na nossa etiqueta de vida em coletivo, quanto mais criminosos cometendo o ato juntos, menos aparenta que foi um crime: saquear uma loja num arrastão parece ridiculamente menos do que assaltá-la.
Só que não. Não é assim que as coisas funcionam. Aliás, é justamente assim que as coisas ruins perpetuam-se, um apoiando no outro, jogando uma batata quente doentia de “mas outros também fizeram”.
Não! Meu inferno por meus pecados…

Parafraseando, Martin L. King Jr. dizia que o silêncio dos “bons”, se é que alguém algum dia foi bom, é muito mais daninho que os berros dos “maus”, e é verdade. E não por eu ser “bom”, ou por meus pecados terem sido apagados pelos pedidos de desculpas e perdão posteriores, como se palavras fossem capazes de verdadeiros reparos; como se demãos de tinta consertassem infiltrações nas paredes; como se beijos curassem feridas abertas… Porém, justamente por serem tão doídas as lembranças; por ser tão clara a impossibilidade de reparo absoluto, seja da mínima ofensa verbal proferida; por ser tão ruim o peso da culpa do mal produzido, não saberia agir de forma tão hipócrita ao ponto de silenciar as minhas maldades, no entanto, vou acusar-me, para tentar comover outro alguém a fazer o mesmo, reconhecendo-me agente do mal que assola a realidade, culpado do terror que a vozes tão exaltadas nós acusamos (nos outros).

Então, acreditando-me no caminho para entender a coisa em si, eu deixo um convite:
Caros, reconheçamos que, como num efeito borboleta, onde um bater de asas num canto desencadearia um tornado em outro, nossas ações daninhas, mesmo os menores, perpetuam e alimentam os absurdos…

Passemos, por favor, a revisitar nossas vidas e consciências, tentando verdadeiramente emendar aquilo de ruim que fizemos.

Retifiquemo-nos, de forma a verdadeiramente contribuir com a extinção do grotesco, que fere a todas: nossas mães, companheiras, filhas, irmãs, amigas, colegas, desconhecidas…

Não adianta mais alienar os males mais grotescos aos “monstros”, que construímos na fantasia para nos sentirmos mais confortáveis com nossos erros!
Não há monstros no mundo! Nem no armário, nem debaixo da cama, nem na calada das noites! Há homens, filhos de mães mulheres!

Apenas para selar a coisa toda, caso pretenda achar um absurdo empatar um palavrão com um espancamento, um “assediozinho” com um estupro, pense no conto que vigora na tal da Sexta santa, onde Pilatos não assassinou porque que quis sozinho, mas porque outros gritavam, pedindo…
Vamos continuar gritando?!

Não vou elogiar, homenagear, devotar-me ou entregar louros, nem nada.
Também não vou pedir perdão novamente, nem particular nem coletivo, sabendo que, de fato, isso não resolveria nada.
O que posso fazer, estou fazendo há algum tempo e pretendo continuar, passando a fazer mais e melhor, é me emendar. Nisso, sim, vou focar minhas energias…
…e não só nos oito de Março.

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