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O ter, que matou o ser (literalmente)

Temos, hoje, um sistema social tão corrompido que, nesse ponto, já não cabe chamar apenas de “sociedade de classes”, como costumou-se fazer no século XIX.
É muito mais p’ra lá dessa simples concepção de uma “pirâmide hierárquica”.
É uma prisão!

Não é Sociologia.
Não vou ficar, aqui, me prendendo a defesas imensas e impecáveis do porquê alguém rouba ou porquê fecha os olhos à miséria. Seria uma profunda perda de tempo.

Pretendo, muito mais, refletir a respeito do que é “viver“, enquanto humano, e como isso se aplica, de fato, em nossas vidas.

Eu tenho um baixo elétrico.
Não me lembro, agora, o fabricante e, sinceramente, nunca sequer decorei.
É alguma fábrica chinesa de instrumentos “série B/C”, que apresenta preços baixos.

Tenho esse instrumento a um bom par de anos.
Após uma década sem encostar em um, esse me foi um riquíssimo presente, e o tenho com muito carinho.

O ponto é: sua engenharia é fraca, fazendo que o corpo pese muito em comparação ao braço, gerando algum desconforto ergonômico, no passo das horas.
Seus materiais não são os melhores, fazendo que seu acabamento não seja impecável, nem venha a encher os olhos de alguém.
Sua regulagem, descuidada, faz que suas cordas sejam varais, de tão altas.
A elétrica, precária, torna seu produto sonoro algo longe do “bom”.

 

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Agora, nesse par de anos que está comigo, nunca deixou de entregar-me sua razão de existir: música.
Pode, sim, – como é de fato – não ser “o melhor possível”, mas é suficientemente bom, e ocupa meu colo boa parte dos meus dias, fazendo o que precisa fazer: ser, para mim, ferramenta.

Apenas para estar claro, um instrumento com essa finalidade varia entre R$ 2.500,00 e R$ 18.000,00. Os Fender Jazz Bass (os senhores da categoria), podem chegar aos R$ 30.000,00, R$ 40.000,00 facilmente, caso sejam edições limitadas.
Esse, meu caríssimo companheiro de treino, custou algo em torno de R$ 300,00.

O ponto que estou pretendendo induzir é simples:
Esse meu baixo, de madeira vagabunda e péssimo acabamento, me entrega sua razão de existir. Porém, numa feira ou vitrine, ele nunca estará visível. Só estarão as “Ferraris” dos instrumentos, custando 1000% a mais, potencialmente.

Um garoto que sequer sabe tocar berimbau procurará uma loja e, nela, será conduzido a acreditar que o que presta é a marca, e não as experiências, as histórias.

Numa analogia, se teu propósito é deslocar-se por um veículo motorizado de quatro rodas, faz diferença ser-te ferramenta um Uno ou um Porsche? Ambos não cumprirão, ainda que de modos diversos, a razão de sua aquisição?

Interrompo apresentando a resposta para a questão: não é a necessidade primária que manda, na aquisição de uma ferramenta. É o que sua posse “diz” sobre você.

Itanhaém tem mar e areia. É uma praia. Mas não soa bem no Instagram. Não soa bem no fim do recesso de Natal, na empresa, na conversa de café. Sequer soa no passaporte.
É preferível gastar uma fortuna para visitar uma cidade suja e cruel nos EUA do que empanar-se de camarões e areia em Itanhaém. Soa mais bonito.

Ter, hoje, é ser.
Mas não é apenas o “ter“. É ter o melhor, o mais desejado, o mais invejável, o mais quisto.
Sendo ter o novo ser, ter o ruim é ser ruim, enquanto ter o admirável é ser admirável.

 

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Isso molda o carro, a roupa, a casa, a comida, o restaurante, a viagem, o celular, o tamanho da televisão, a largura de banda da internet, a “marca” do bicho de estimação, os planos, os sonhos, a execução da vida como um todo.

Não existe o “ser” numa realidade assim, afinal isso não tem etiqueta nem logotipo.

Não se comprova o ser num bater de olhos desatento. Precisa-se de troca, de entrega, de exposição.
Mas quê se expõe, quando se está vazio?!
Qual a graça de ter um aquário gigante na sala de estar se esse estiver seco?!
Como se expõe uma alma que desistiu de respirar para acumular?!

Nisso, entramos no vórtice imparável da compensação, buscando o X para suprir a carência do Y, que precisará do Z para encobrir sua deficiência…

Vai-se, nessa brincadeira, buscando hobbies para apagar a falência matrimonial; buscando desempenho nesses, para esconder que são refúgio; investindo mais e mais, para desenvolver esse desempenho, forçando-se a trabalhar mais, para pagar os investimentos; caçando vícios, para anestesiar a estafa, que custarão mais dinheiro, pedindo novas promoções, que dependem de uma melhor aparência de status; aparecendo-se mais, precisa-se forjar uma personalidade extra, que vai demandar esforços que, ao longo prazo, pedirão terapias…

Chamo de vórtice porque é incontrolável! É, numa fileira de um bilhão de taças, esvaziar a seguinte para preencher a anterior, dependendo da repetição doentia do processo, nunca encontrando um fim.

 

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Hoje, e sou esclarecido do quanto eu me incluo na doença, quem é capaz de responder clara, franca e imediatamente “quem é você?”?
E isso deve-se a um fator muito simples: nós não somos mais, verdadeiramente, nada!

Somos o cargo que ocupamos numa empresa. (Que perde-se numa demissão.)
Somos o celular que ostentamos no bolso. (Que quebra numa simples queda.)
Somos a marca, modelo e ano de nosso carro. (Que desmancha, num acidente.)
Somos os MB de internet, pelos quais navegamos na Internet. (Que não nos acrescentam em nada.)
Somos as quantas vezes fomos à Disney, nos últimos anos. (Como se isso fosse algo real.)
Somos o bairro onde moramos, e quantos dormitórios há em nossos apartamentos. (Como se precisássemos mais do que um teto, para dormir, já quem nem vivemos mais nossas vidas mesmo…)
Somos quem famoso podemos chamar de “amigo”. (Sendo que sequer nós somos nossos próprios…)
Somos quão invejável é nosso parceiro sexual. (Em relações onde nem há relação.)
Somos, na realidade, porra nenhuma, ao ponto de sermos incapazes de responder à pergunta mais simples do universo, pergunta essa que uma formiga, se pudesse falar, teria “na ponta da antena”…

 

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No entanto, quanto esforço fazemos para driblar a necessidade que nos clama saber responder isso?!

QUEM EU SOU?! Como se vive com a incapacidade de responder essa pergunta?!

Quem é você?!
Quem sou eu?!
Quem somos nós?!
Quem, a essa altura do campeonato, deveríamos já ser?!

Respondo: não somos nada nem ninguém, e jamais seremos, a menos que passemos a imitar as formigas, que respondem isso todos os dias, sem nunca titubear, há milênios.

Por quanto tempo você ainda aceitará não ser ninguém?

E segue sendo cantada a marchinha de Carnaval que diz: “do mundo não se leva nada”.

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