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O preço da paz

Aylan morreu… A maré o levou à Turquia. E, enquanto o soldado o tirou da areia e levou ao funeral, nos sentimenos humanos, e gritamos e choramos. Mas, há tão poucos dias do encontro com Aylan, zeramos nosso contador, e voltamos à alienação do cerne da questão, como bons humanos que somos. Aylan é a ponta de um iceberg de bebês morrendo de fome, espiritual e física. Até onde iríamos pelo bem dos novos “Aylans”?!

Chega! O silêncio não é mais um direito! Precisamos voltar os olhos ao conflito na Síria, e no colocarmos no lugar dos Chefes de Estado, líderes mundiais, e romper a porca barreira do “não é comigo”.

Assistimos estarrecidos ao recolhimento do cadáver do pequeno Aylan na costa da Turquia. Compartilhamos, choramos e compartilhamos mais, e foram feitas obras de arte em homenagem à pequena vítima do inferno. Porém, enquanto gastávamos exageradamente a imagem do pobre garotinho, esquecemos de outros milhares que há anos choram de fome, sentados em fezes, destruídos antes de brotarem de fato, pelo interesse particular.

Aylan representou a ponta de um iceberg que perdura por infinitos quatro anos!

Longe de um texto jornalístico, ou qualquer tipo de apanhado sobre o conflito, desejo prender nossa atenção na questão maior, e sinceramente impossibilitando de vender uma verdade, espero chamar ao verdadeiro problema que assola o Oriente Médio desde a Primavera Árabe, movimento revolucionário, pai da guerra civil síria.

Antes de tudo, ignoro, profundamente, toda especulação realizada a respeito da verdade ou não relacionada à cena do garoto. A questão é incomensuravelmente maior. Perder tempo e energia calculando se foi real ou não, se o pai era ou não mercador de escravos nada mais é do que uma última tentativa desesperada de tirar o peso das costas, que nos encurva, e retornar à nossa “realidade” alheia ao que acontece.

“Não é comigo”, “não tenho parentes na Síria”, “são terroristas”, “alguém vai fazer alguma coisa”… Poderia seguir a vida escrevendo premissas modernas de desinteresse.

No entanto, não foi a Internet que rompeu as barreiras do espaço-tempo, e nos fez partilhar do presente relativo, independente de onde, no mundo, esteja acontecendo? Não foi a internet que iniciou o processo de derrubada das barreiras, de senso universal de humanidade, alheio ao de “tribos”? Não comemoramos em tempo real a validação legal da união homo afetiva nos Estados Unidos? Por quê, exatamente, uma coisa faz sentido ser vivida e outra deve ser ignorada?! Por quê não estender a empatia de Aylan a todas as crianças sírias, condenadas à morte de alma?!

É aqui que declaro ser funesto o sentimento de alienação, nossa incapacidade de comoção com a questão maior.

 

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A Síria, com seus quase 18 milhões de habitantes, enfrenta há anos a opressão, e, com espírito inquebrável, tem consumido sua juventude no louvável, porém fracassado de berço, desejo de libertação. Libertação do demônio, que chamamos de Bashar Al-Assad, um monstro, que a troco de sua soberba, condena o país à destruição.

A Primavera Árabe, o desejo de evolução, a revolução pela liberdade, direito humano, se estica por tempo demais!

Não haverá resultado! Os exércitos, militares e paramilitares de oposição, depois de quatro anos, estão sucumbindo! O resultado lógico será a eliminação das forças rebeldes e a continuidade da tirania!

O mundo assiste calado, com nó na garganta. Se prende às homenagens ao pobre Aylan, mas Aylan já está livre do tormento! Prolixo, com toda a situação motiva, há outros milhares, ou milhões de crianças morrendo por dentro e por fora! Nem quero mencionar os número da UNICEF, porque se o fizer, preciso afirmar que quase 1.2 milhão de pessoa não tem acesso ao apoio humanitário… É o inferno! Imagine o que é viver o desespero e perguntar, em vão, “tem alguém aí fora?!”…

Agora, sem mais conseguir prorrogar o assunto, sem conseguir adiar o cerne da questão, o mundo devia intervir. As barreiras mentais, derrubadas pela internet, deveriam ser derrubadas de fato. Precisamos de uma Organização Mundial menos boa-praça.

A ONU tem, sim, um papel fundamental no mundo, mas não seria já adequado poderil militar, capacidade de intervenção “ad baculum” quando a diplomacia falha?! Sanções econômicas historicamente não resolvem mais nada!

Automaticamente, a OTAN vem à mente, o tratado militar EUA-Europa, a maior coalização militar no mundo, o maior arsenal bélico, o maior potencial, maior poder de parada. Mas, sendo tudo isso, por quê não intervem?!

A resposta é muito simples: o Kremlin apoia Al-Assad. A China garantiu apoio incondicional ao regime ditatorial sírio. A OTAN calou-se instantaneamente. A ONU pediu que os ânimos ocidentais seja acalmados. A Córeia do Norte provavelmente se uniria às potencias orientais em nome da boa fama da família de tiranos sírios.

 

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Estamos, meus queridos leitores, frente à Terceira Guerra Mundial! É por isso que, ao iniciar o texto pedi que pensemos com mentes de Chefes de Estado… É uma estrada de mão dupla, onde nenhuma tem paz de espírito: calar e assistir, e incorrer no crime de responsabilidade, por não fazer nada perante a destruição de incontáveis vidas humanas ou arriscar iniciar um conflito mundial, provavelmente regado a bombas nucleares, a destruição do mundo.

E nasce a defesa do título: qual é o preço da paz? Quanto vale uma única vida humana? A quais sacrifícios estamos dispostos? Vamos nos contentar em agredir os olhos alheios nas redes sociais com fotos de um cadáver infantil? É isso que podemos fazer pelo mundo? É a isso que se resume nossa “humanidade”? A que ponto vai nossa empatia? Perderíamos vidas, empregos, arriscaríamos a economia mundial, a integridade do planeta, pelos quase 18 milhões de sírios que padecem com a guerra? Não seria essa a hora dos governos mundiais livres mostrarem à Russia que o futuro chegou, que sua arrogância não tem mais valor, e a liberdade cabe ao humano por direito?!

Como garanti ao início, não estou vendendo verdade, estou mostrando uma faceta dela e pedindo reflexão. De minha parte, eu anseio a intervenção da OTAN, a derrubada do regime e o início de um novo ciclo no Oriente, onde a humanidade é exaltada perante toda a arrogância religiosa, ditatorial ou política, uma vez que somos todos humanos, antes de qualquer outra invenção posterior à nossa natureza. Eu compreendo que isso seria o possível fim do mundo, que muitas vidas terminariam, inclusive a minha, mas prefiro terminar minha vida com um balaço que continuar chorando sentado o desespero alheio.

O que seria do mundo se a coalização da “Aliança” ocidental, que combateu Hitler e Mussolini não tivesse agido? Impediríamos uma guerra, o potencial fim da humanidade, mas quanto valiam as vidas dos judeus e poloneses? Não foi baixo o preço pela destruição de um Satã e a reconstrução de um mundo mais humano?

Eu desejo a intervenção da OTAN, a derrubada do regime de Al-Assad, e cago se a consequência será a Terceira Guerra. Eu, e que sirva de atestado, me disponho a combater junto a nova “Aliança”, em nome da liberdade, humanidade, do direito à verdadeira vida, e prefiro morrer em vão por essas máximas do que viver num mundo cego por opção perante a crueldade de poucos.

Por fim, não aceito mais assistir ao cadáver de um novo Aylan, me fingindo confortável nesse mundo doente. Que o sonho que Lennon levou para a cova seja o sonho de todos, e façamos dele um lugar para se viver.

Que a vida humana seja exterminada da Terra antes que a humanidade seja exterminada de nossas mentes.

“Imagine all the people leaving life in piece… You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one. I hope someday you join us and the world will be as one”!…

 

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