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Nem Chico sabe quem é Chico

Desde seu aniversário, há alguns dias, estou azedando falar de Chiquinho.

Chiquinho, ou Chico (eita familiaridade) – o Chico Buarque, nasceu no Rio de Janeiro, lá no 19 de Junho de 1944, quando o mundo quase voltava a respirar pela Guerra infinita.

De batismo, levou o nome de Francisco, o mesmo do santo – aquele homem simples de Assis, que falava com animais, andava descalço e dormia ao relento. Francisco Buarque de Hollanda é seu nome.
Muito mais abastado que o santo, Chiquinho não dormia ao relento nem nada do tipo, mas aprendeu de pequeninho a falar com as notas.

É filho de Sérgio Buarque de Hollanda, renomada historiador, com Dona Maria Amélia Cesário Alvim, uma das fundadoras do Partido do Trabalhadores, o PT.
Irmão de Miúcha, de Ana e de Cristina, pai, com Marieta Severa, sua ex-esposa, de Sílvia, Helena e Luísa, aparenta ter a arte correndo nas veias – para nossa felicidade.

Chiquinho, hoje, é um renomado escritor, com prestígio universal, dramaturgo e uma das maiores joias da Música Popular Brasileira, de mãos dadas ao maestro Tom, seu parceiro de composições.

 

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Apenas para pincelar essa faceta de sua história, Chico não desonra o sangue político. Um ano depois do AI-5, no Brasil, deixou o país e passou meses na Itália, aterrorizado com os avanços do regime militar, poucos anos após ser premiado, com sua canção “A Banda” no ilustre Festival de Música Popular Brasileira – aquele mesmo que consagrou outros inúmeros nomes, entre eles Jair Rodrigues, que roubou corações com a interpretação calorosa de “Disparada”, de Geraldo Vandré.

Agora, vamos deixar história de lado. O artigo diz que “nem Chico sabe quem é Chico” e estou, eu, aqui, apenas repetindo o que todo mundo já sabe.

Não, não é sobre isso.
Tampouco seria sobre o democrata engajado e poderoso crítico político. Também não é sobre isso. É sobre o Chico que fui conhecendo de pouquinho. O mar de Chico que vejo ser difícil de ser mergulhado.

Chiquinho é dono de um coração terrível. Sim, terrível. Seu coração, profundamente sentimental, fala de coisas que não queremos falar, mas de um modo que traduz nossas próprias palavras. Esse coração, que nos rouba a essência e expõe em forma de música, nos transporta a um labirinto – e não o do Fauno rs – de emoções contidas e maltratadas. Nos permite, nos intervalos das teclas do piano, ou dos acordes do violão, amargar o boldo da vida, seja pela saudade, seja pela tristeza do “se”, seja pela paixão nascente, seja pelo que seja.

Nessas, de visitar, revisitar e refletir vamos nos conhecendo, amadurecendo, e, no meio, conhecendo Chico também.

Esse seu terrível coração, acompanhado da mente ardilosa rs, rendeu-lhe o epíteto de “conhecedor da alma feminina”, uma vez que, por costume, assumia persona feminina em muitas de suas canções, fugindo ao contexto que pouco ou nada se importava com elas (obviamente, exibiu seu machismo em muitas canções, como “Feijoada Completa”, porém mesmo hoje não conheço um único homem na face da Terra que não o seja, diariamente).

Ao contrário do senso comum, não entendo essa sensibilidade exagerada de Chico como uma “efeminação” (entre aspas, para não soar pejorativo). Sinceramente, ainda não me é claro o que é verdadeiramente “masculino” ou “feminino”, como se o homem sensível não fosse tão homem quanto o troglodita, ou como se a mulher dura fosse menos mulher que a sensível… Penso, eu comigo, que nada faz um homem tão homem quanto render-se, despudorado, à delícia das emoções – reparem como costuma-se dizer que a paternidade molda os homens. E quê seria a paternidade senão a derrubada dos muros impostos da dureza, da macheza, da impermeabilidade?

 

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Chiquinho é dono de incontáveis pérolas da MPB, seja sozinho, seja com Edu de Góes Lobo, seja com Tom, com quem quer que sentasse para compôr.

Imagino as tardes de Domingo, em Ipanema, sentado com seus amigos boêmios, enchendo a cara e escrevendo, entre lágrimas – as de bêbado rs – e gargalhadas – também. Imagino e me mordo de inveja.

Chico me visitou muitas vezes, na dor do coração partido, na alegria da noite etílica, em tardes de amor quente, em despedidas, em novos “muito prazer!”, em saudades, em madrugadas de choro doído, em manhãs de ressaca, em esperanças… Ah, e como me visitou. E, quando não visitava, eu mesmo ia atrás, fosse cantado por si, fosse por Elis, fosse por Tom.

Talvez por ter nascido com um coração parecido, possa dizer com propriedade ímpar que conheço Chico. Mas não o Chico que todo mundo conhece. Conheço um que quiçá nem ele mesmo conheça… Conheço um bom amigo, que fala minha língua, e é um “chef gourmet” de iguarias para a alma – e almas têm muita fome, sempre! São insaciáveis!

O Chico que conheço, me conhece melhor que eu mesmo.
O Chico que conheço, não conheço muitos que conheçam.
O Chico que conheço, nem Chico sabe quem é.

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