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Música, uma revolução silenciosa

De todas as formas de expressão humana, a música é a mais livre, mais atemporal, mais sublime. Define-se enquanto vive.

Quê melhor do que música para inquietar espíritos, questionar paradigmas e fomentar revoluções?

Como qualquer manifestação puramente humana, a música é impactada pelo “momento”, pelos detalhes da existência humana neste exato tempo, pelos sentimentos e aspirações da situação. Assumo, aqui, ser um consenso que a música é arte, embora a modulação sonora como expressão não seja própria apenas dos humanos (mesmo as cigarras modulam sonos para sua expressão), mas o caráter que nos diferencia dos demais “moduladores” sonoros e, por consequência, faz da música uma arte é a profundidade da mensagem. Parece bizarra essa afirmação, mas é interessante para garantir que os conceitos básicos são convenientes, ao continuar a defesa.

Utilizamos a música como ferramenta de imortalidade desses sentimentos e aspirações, perpetuação na história do nosso momento, em particular.

Tendo em vista essa afetação temporal na expressão musical, somos capazes de, numa audição delicada, reconhecer o objetivo do compositor, apesar da passar do tempo. Isso é magnífico!

No entanto, embora intrinsecamente vinculada ao momento, a música possui uma liberdade sublime, que a torna superior às demais artes: o poder de “voltar no tempo” e, mesmo sendo uma execução atual de um gênero ou técnica primitiva, fascinar. “Querido, como assim?!”, você me perguntar. A melhor resposta seria uma analogia: imagine a pintura. Imagine, no século XXI um artista que se dedica à pintura rupestre. Quão ridículo ele seria? Agora, imagine uma Quena, uma flauta peruana, tão velha quanto a história do Peru? Soa bizarra? Nem um pouco: soa fascinante! Assim, também, a gaita de fole, a harpa de boca, cítara. Nenhum tem espaço na cultura corrente, mas todos, fascinando, desrespeitam, sem escrúpulo, sua primitividade, gozando a atemporalidade da música.

E aqui começa a teoria: a música, em sua absurda liberdade, é capaz de viver ciclos de renascimento independentes, sem vínculos necessários com revoluções sociais ativas, enormes e bagunceiras. É safa, lisa e escorrida: ela promove, instiga revoluções, mas não, necessariamente, participa da ação. Apenas assiste.

Hoje enfrentamos um período de profundo simplismo cultural. Engraçado esse ponto porque, há não muito tempo, um jornalista brasileiro cometeu suicídio moral em rede nacional com essa acertadíssima afirmação, porém embrulhada em muita teoria questionável, um pouco de arrogância e prepotência. Caso à parte, vemos uma humanidade intelectualmente empobrecida, que perdeu o espírito curioso e, com ele, o prazer do conhecimento. Resultado disso em poucas gerações? Bebês intelectuais, que só se alimentam daquilo que lhes é servido à boca, com aviãozinho. Obviamente, olhos pouco curiosos, mãos pouco inquietas, mentes preguiçosas, todo e qualquer aspecto de nossa existência será empobrecido, para ser mais aceitável ou mesmo agradável, já que nos exige pouco.

 

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Como sempre, influenciável pelo presente, ainda que atemporal, a música tem se tornado profundamente simplista, justamente para acompanhar a preguiça mental. Tem sido cada vez mais difícil relacionar a definição de “combinação harmoniosa e expressiva de sons” com o que estamos aprendendo a chamar de música: não muito mais que uma batida repetitiva com vozes estridentes sobrepostas a ela.

Não me atrevo a condenar o gosto de alguém, mas convenhamos e isso não é questão de opinião, a comercialização musical das últimas décadas tem empobrecido absurdamente o produto sonoro, justamente para acompanhar a pobreza cultural dominante e conseguir o interesse das massas.

Espírito humano enfraquecido, mentes empobrecidas, cultura pouco culta, arte pouco artística. Ingredientes perfeitos para o surgimento de almas inquietas, no submundo. Assim começa a revolução silenciosa! Revoltados com esse cenário, utilizando os canais de “streaming” e as redes sociais, os músicos independentes, livres das cruéis garras do comércio musical (o compromisso não é com a figura pública de artista, ou com a comercialização do produto artístico, mas com a arte, nesse caso, compromisso imediato com a música, e só com ela), têm se exposto ao mundo, recrutando mais revoltados, que se identificam com a sede de valor, reavivando estilos e técnica antigas, mesmo as primitivas, abarrotadas de sofisticação e riqueza. Não mais trancados em porões e garagens, mas com visibilidade mundial, iniciando e instigando essa revolução passiva e, novamente, silenciosa, estão alimentando espíritos inquietos e, aos poucos, dando forma a um novo Renascimento cultural.

Como já dito anteriormente, a música não irá revolucionar nada ativamente! Ela não irá derrubar paredes, ensinar ciências, escrever ivros, nem nada senão cutucar, gerar a inquietação, fazer pensar, fazer querer pensar, querer mudar, Ela vai questionar os paradigmas. Revoluções dependem desse questionamento, dessa inquietação, desse desejo. Quem melhor que a louca Geminiana, tal como gosto de chamar a “Prima Ars” (Primeira Arte), a amada música, para isso? Sem violência, sem bandeiras e flâmulas esvoaçantes, mas repleta de beleza, subliminar, vai, silenciosamente, dançando no ar em ondas sonoras ou escorregando pelos fones de ouvido, vendendo um mundo mais bonito, mais repleto de verdade, de conhecimento, próprio e do mundo, de beleza, à qual nossa alma não resiste.

No fim, não importa em que pé está ou quanto ainda falta para uma revolução de fato. Nem importa, na verdade, se haverá uma revolução de fato, se o espírito sofisticado do passado vai voltar à moda ou se continuaremos descendo os degraus na escala da evolução, como temos feito. Importa, sim, que está acontecendo algo, que nem todos os espíritos estão conformados. Importa, sim, que a cada dia, alguém descobre o Jazz, outro descobre Chopin ou a Chacarera, ou aprende a tocar flauta e vai em público, exibir o talento. Importa que o ponto de vista vem mudando. O artista de rua cada dia deixa um pouco de ser o “vagabundo pedinte” e passa a ser o “artista alternativo”. Que belo paradigma sendo mudando!

 

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Se não houver Revolução absoluta, um único espírito humano retirado da lama do simplismo já é uma vitória, e todo o esforço já valeu a pena.

Estamos iniciando uma revolução silenciosa, passiva, que quietinha tenta mudar o mundo, banhar a ouro a humanidade, e a internet, sem talvez nem se dar conta, tem sido o fermento dessa baderna.

Cedo ou tarde, o simplismo daninho será esmagado pela sofisticação cultural, curiosidade visual, riqueza intelectual, inquietude manual, tão consoantes ao nosso espírito humano ilimitado.

 

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