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Muita boca, pouco cérebro

Adoraria que tratasse-se apenas da minha “opinião” – essa nova e grotesca realidade, que versa sobre tudo, trazendo nada que preste como produto final -, mas não. Não é minha “opinião”. É a assustadora realidade, na qual estamos trancados e obrigados a viver, correndo o risco de sermos chamados “intolerantes”, caso a desprezemos.

Há muitas bocas humanas no mundo.

Em números, sete bilhões e uns trocados.

Dentre essas, 3,2BI (quase a metade) possuem acesso à Internet – a rede mundial de computadores -, sendo a esmagadora maioria (já que a China corresponde a pouco mais de 600MI de usuários) capaz de acesso irrestrito ao seu conteúdo.

Com isso, muito mais do que um canal de aquisição de informação, cada boca ganha um megafone de alcance universal para a comunicação.

Sendo assim, que tal refletirmos a respeito de quê e como é transmitido por esses megafones?

Faz parte, hoje, de nossa realidade, lidar com as mais diversas manifestações através da rede.
Somos perfeitamente livres para expor situações que estão nos afetando, compartilhar gostos, recomendar experiências, falar sobre alguém. Somos livres.
Não há uma ética diversa da “offline“. Tudo que somos capazes de falar a quem está em volta, somos capazes de transmitir a quem não está.
Busca-se uma etiqueta que contenha detalhes íntimos, dizeres com repercussão negativa, e afins, mas, exceto por aquilo que a lei proíbe, tudo está bem.

 

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Por um lado, isso é maravilhoso, uma vez que nos dá uma via de “desentalamento” emocional perante diversas situações que costumamos calar, encorajando cada vez mais pessoas a assumirem-se tais quais são. Como nos disse Stephen Hawking, “o importante é que continuemos falando“.
Por outro, sobre o qual Umberto Eco já havia nos alertado, esse poder – que, como todos, traz consigo grandes responsabilidades – pode ser usado com finalidades menos saudáveis e nobres: a propagação da estupidez.

Eco nos disse:

“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

No entanto, não posso não me ater à observação de que os que mais reproduzem esse discurso são os escritores e blogueiros da Internet que, como eu, estão mais propensos a serem imbecis que a receberem um Nobel.
Acho importante ressaltar tal consideração uma vez que, estando muito mais cá que lá, farei dela a “regula magna” para o que seguir.

Vou, portanto, utilizar meu megafone da maneira que me aprazer, ainda que corra o risco de ser apenas mais um completo idiota fazendo o mesmo.

Sem enrolar – e, olha que adoro –, o ano de 2016 poderia tranquilamente ser colocado num dos capítulos do Apocalipse de João. Foi um ano de desastres em todas as possíveis esferas que, alinhadas, compõem o orbe flutuante que habitamos.

Pretendo, assim, levantar alguns dos eventos escatológicos que vivenciamos, especialmente no Brasil, para, então, acusar o que, na minha óptica, representou a tal voz dos imbecis.
Façamos, então.

Vivenciamos uma história que sequer o mais torpe do ramo do horror seria capaz de imaginar: uma adolescente de dezesseis anos sofreu um estupro coletivo, no Rio de Janeiro, por trinta e três estupradores.
Não fosse terrível o suficiente, o crime foi filmado e compartilhado, utilizando-se a Internet, praticamente em tempo real.

 

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Embora nossa legislação seja perfeitamente clara a respeito da interação sexual com adolescentes (o estupro estatutário, que não compreende capacidade real de consentimento, ainda que o ato não se consume por uso de violência física – sabendo-se que sexo sem consentimento é estupro), o exército de imbecis foi pronto e ágil em julgar, condenar e, mais tarde, buscar até “provas” que endossassem o veredito.
Históricos de vida da adolescente; áudios, que afirmava-se serem dela; fotos com fuzis. Todo um dossiê, sem o mínimo de minúcia, foi levantado, buscando atribuir à vítima a culpa do crime hediondo que, contra ela, havia sido cometido.

Não só a observação da lei foi ignorada, como o próprio bom senso.
No país onde um caso de estupro é registrado a cada onze minutos (e apenas uma pequena parcela é, de fato, registrada), ainda um exército se levanta para acusar a vítima, contando, inclusive, com membros da Justiça para a afirmação.

Relembro o caso porque, na era da informação ao toque na tela, a memória vai atrofiando.
Pretendo, mesmo, apontar a principal afirmação, utilizada como premissa de sentido, por tal exército:

“Ela quis. Sabia exatamente o que estava fazendo, e não era a primeira vez.”

Num paralelo, há poucas semanas, Ana Júlia, secundarista e participante do movimento estudantil para ocupação das escolas contra a (então) PEC 241 – hoje PEC 55, já, inclusive, aprovada pelo Senado Federal -, discursou de modo conciso e comovente na Assembleia Legislativa do Paraná, defendendo a legitimidade do movimento de ocupação.
Ana Júlia, de dezesseis anos (mesma idade da adolescente, vítima do estupro coletivo no RJ), foi atacada pelo mesmo exército de imbecis da Internet, por “não saber o que estava fazendo“, já que é vítima de doutrinação dos pais “petistas“.

 

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Duas jovens, mesma idade, mesmo país.
Uma, a vítima, para esses imbecis, é completamente capaz de saber o que está fazendo e, por tal, merece arcar com as consequências de seus atos.
A outra, a atuante, para os mesmos idiotas, é vítima de doutrinação e, por tal, não possui discernimento correto do que diz.

A vítima é culpada. A atuante, vítima.

Adoraria que acabasse por aqui, mas não.

Há alguns anos, o avião que transladava o então candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, sofre queda, provocando sua morte.
Obviamente, a comoção é nacional, e todo o respeito é devotado à vítima do acidente.

Já aqui, nesse final de 2016, Fidel Castro, líder revolucionário cubano, tem sua morte por causas naturais anunciada para a mídia mundial.
Enquanto Cuba se isola no luto, o exército de imbecis começa a desonra post-mortem, com acusações, piadas e todo o tipo de escárnio.
Não bastasse, muitos dos “comediantes” (e, para entender as aspas, convido a ler esse artigo aqui) que discordavam tanto dos governos progressistas brasileiros quanto da revolução cubana, começam suas piadas, dando a entender que Lula e Dilma poderiam morrer também, “seguindo os passos dele” – alguns indicando que poderiam sofrer um acidente de avião na ida a Cuba -.

No entanto, apenas poucos dias mais tarde, vivenciamos um terrível acidente aéreo na Colômbia, vitimando atletas, comissão técnica da Chapecoense e vários jornalistas, que estavam no voo.
Enquanto faziam piada com a morte de Fidel; enquanto, novamente, desejavam que Dilma e Lula estivessem mortos, os mesmos imbecis agora viviam o luto.

Dane-se posicionamento político; dane-se concordância ou não com um modelo de governo, lembro-me claramente de um ditame que, ainda criança, minha mãe me ensinou: não deseja-se o mal nem para o pior inimigo.

E, não fosse incoerência e atitude suficientemente abomináveis, Catraca Livre decide tornar o pior acidente do esporte brasileiro palco de sensacionalismo, desagradando gravemente sua legião de oito milhões de seguidores.
Mas onde entra nosso exército de imbecis nisso?

Ah, não se frustre: eles passam a pronunciar ódio e repúdio ao site, pedindo seu fim como punição pela frieza e desrespeito…

O mais “engraçado“, se é que cabe dizer assim, é que, ao mesmo tempo, a Globo, em todos os seus canais, exibia imagens dos destroços, detalhes e conspirações sobre as possíveis causas do acidente.
Não muito tempo depois, Roberto Cabrini, correspondente do SBT, faz uma sessão de fotos junto aos destroços, gravando, inclusive, a manipulação dos despojos do acidente, abrindo bolsas, fuçando pertences.

Um erro alivia outro? Claro que não.
No entanto, um erro apaga os próximos?
E então? Onde está o coral dos idiotas?

 

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Contudo, ainda não é hora de encerrar a reflexão.
Durante os últimos dias, o Supremo Tribunal Federal decidiu abrir jurisprudência que descriminaliza a prática do aborto entre o primeiro e terceiro mês de gestação.

Ignorando-se o debate em si, o exército de imbecis retoma sua marcha, dessa vez contra as mulheres pró-aborto.
Seus “argumentos” pautam-se na Bíblia – código de “ética” do cristianismo -, no “fecha as pernas” (como se masturbação feminina fosse também capaz de fecundação) e na “retórica” de que embriões são seres humanos, a despeito das afirmações científicas que o negam.

O mais importante nesta questão é apontar que, há pouco mais de duas semanas, a Rede Globo de televisão movimentou os ânimos, antes mesmo da questão do aborto ser levantada.
Tudo repousava numa enquete, no programa de Fátima Bernardes:

“Entre um traficante gravemente ferido e um policial com ferimentos leves, quem você socorreria primeiro?”

Obviamente, os imbecis levantaram-se aos berros, afirmando que “bandido bom é bandido morto“; que jamais socorreriam o traficante nem bandido algum; que esses nem deveriam estar vivos.

O disparate todo repousa no conflito entre o pedido de morte aos “bandidos” e a tão glorificada “defesa da vida”, que se apresenta quando falamos de embriões.
Ao mesmo tempo que são desejosos do assassinato, intitulam-se “a favor da vida”.
Pode?!

Chegam ao absurdo de alegar que os que defendem o aborto apenas o fazem “porque estão vivos“, como se fosse possível defender o que quer que seja após a morte…

Mas ainda não para por aqui. O trenzinho do absurdo segue a todo vapor.

Kim Kataguiri, fundador do MBL (Movimento Brasil Livre), que adora afirmar-se um “liberal“, aproveita-se do ensejo para pronunciar-se, no Youtube, pedindo intervenção do Congresso na decisão do STF, pelo maravilhoso direito à vida.

Ora, como é possível dizer-se liberal, enquanto doutrina que clama o direito à autogestão individual, sem ação do Estado – que, segundo eles, deve ser mínimo, nunca influenciando pessoas ou negócios – se, quando é apresentada uma oportunidade para os indivíduos gerirem sua própria liberdade, agarra-se as cuecas dos padrinhos políticos?!

Claro que esse garoto já possui um curriculum gigantesco de imbecilidades. Porém, ainda dedicamos um certo direito à (milésima)segunda chance, o que acaba por nos provocar ainda mais sustos e ranger de dentes.
E, como se não bastasse, ainda falando de nosso “menino dos Power Rangers“, o mesmo MBL que encabeçou, a mando de partidos e interessados, o movimento “democrático” que pedia o Impeachment de Dilma Rousseff, colocando Michel Temer como Presidente do Brasil, agora pede que todos se unam para derrubar o desgoverno que eles mesmos instauraram!

É mole?!

Entendo que é o princípio do moleque teimoso, que faz e desfaz, insistindo ser capaz de se limpar sozinho, mas chora, horas depois, porque a merda restante lhe assou o rabo.
Só que, quando não se aprende por amor, aprende-se pela dor – princípio universal -.

 

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Sei que, como de costume, estou esticando demais.
No entanto, apenas para concluir, o pensamento é uma atividade natural nos seres humanos. Pensamos sem mesmo perceber que estamos pensando. É como o respirar. Um ato natural.

Porém, assim como a respiração, o pensamento pode ser executado de forma inadequada.

Quem canta poderá me atestar: inflar os peitos não enche o pulmão de ar. O fôlego, com os peitos inchados, termina muito antes do que deveria, pedindo-se, portanto, que o diafragma seja inflado, e não os ombros…
Da mesma forma, o pensamento precisa ser exercitado e executado da melhor forma possível, utilizando método, organização e objetivo.

A lógica, embora possa parecer apenas ferramenta para montar Quiz no Facebook, é uma ciência, e está aí para auxiliar na aquisição, filtro e tratamento da informação, permitindo adequação de conhecimento e raciocínio, única razão pela qual nosso cérebro é maior do que de nossos primos primatas.

Agora, tendo trazido todos esses exemplos, ilustrando a grosseria e dano desses modos de pensamento, é possível que adotemos a postura da bocarra aberta, gritando no megafone, parecendo matracas sem cérebro?

Não é desgostoso encontrar-se, no dito de Umberto Eco, como um imbecil com poder de fala?
Menti quando mencionei o ditado, exposto em “O Homem Aranha“, que grandes poderes trazem grandes responsabilidades?
Não é nossa responsabilidade utilizar esse “fogo divino“, que guardamos nos bolsos e bolsas, para propagar o avanço, a descoberta, o crescimento?

Se Prometeu aceitou ser comido por águias eternamente apenas para apresentar o fogo à humanidade, imaginem o que aceitaria passar para ter acesso à Internet.
Nós o temos, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, todas as semanas de todos os meses, desde os últimos anos, e, mesmo assim, aceitamos a imbecilidade…

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