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Lexotan Go

Diversão ou doença?
Positivo ou assustador?
Se causou febre, tem infecção por perto.

Chego no escritório e um colega assiste extasiado a um vídeo, repetindo “Nooooossa!” de X em X segundos.
Curioso, paro p’ra entender: Nintendo lançou o trailer de um mobile game de realidade aumentada com a temática Pokémon.

P’ra quem não saiba (duvido sinceramente ser possível), Pokémon registra uma série de jogos para o consolinho GameBoy, da Nintendo, tendo, no passo do tempo, se tornado uma série de animes, sequência de jogos para os novos consoles da Empresa, franquia de produtos de uso e consumo. Um marco de minha geração.

Nintendo, em tempos de FullHD, 3D, simuladores de realidade e interação completa torna-se uma marca “para crianças”. Tinha, até pouco tempo, como seu “carro-chefe”, um console de mão, neto do GameBoy, o N3Ds. Era, até dias atrás, uma marca fraca no mundo dos games, lutando com Sony, Microsoft e Steam. Irrelevante. Uma tartaruga correndo contra lebres.

Eis que surge o tal trailer. Nintendo, com desenvolvimento da Niantici Inc., finalmente entendeu estar agonizando na arquitetura de consoles e, quase morta, rende-se ao campo do desenvolvimento multiplataforma. Nasce o conceito: Pokémon Go.

No que se entendia do trailer, seu celular com câmera seria a porta de entrada de um novo universo, onde o mundo real é o cenário das batalhas Pokémon. E o melhor? Em tempo real, online, contra pessoas de verdade.
Não seriam necessários cabos e conexões estranhas, como nos meus dez aninhos. Tudo pela rede mundial de computadores.

 

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Vendo o trailer, me uni ao coro de “Nooooooossas” do colega. Que ideia genial! Que lancem logo!

Pois bem: a pior droga do mundo é a expectativa. Ela causa “bad trip” na certa!

Eis que sai Pokémon Go beta na Austrália e, em seguida, começa a ser lançado pelo mundo.
Nos primeiros dias a “febre” começa a expor a infecção.

Acidentes de carro, incidentes fatais, histeria coletiva, aglomerações, assaltos e assassinatos.

Mas por quê tanta merda?! É só um jogo!

Pois é: problema é como se joga.

Numa proposta “genial” de arrancar os ermitões gamers de seus quartos, a mecânica do jogo se baseia no deslocamento físico, calculado por GPS. Os Pokémons aparecem, sim, em sua tela, mas apenas em lugares físicos específicos.
Tem Pokémon no posto de gasolina, no quarto da vizinha, no Hospital, no meio do córrego, na biqueira de drogas, no meio da rua. Eles estão fisicamente e exclusivamente naquele ponto!

OK. Sejamos justos. Realmente os gamers andarão fora de seus quartos (inclusive, cada ovo de Pokémon só choca depois de 5km caminhados, enquanto esses estão em chocadeira).
Agora, sejamos ainda mais francos: que cheiro sobe ao imaginar alguém caminhando por aí com o celular na mão? De merda, certo?

Pois é. Não é suposição. Já é fato. E fato amplamente divulgado pela mídia.

No entanto, será que toda possível merda reside na violência potencial, facilitada pelo produto? Temo que não.

Entre sem login na home do YouTube? Veja sites e fóruns de games? Acompanhe notícias de tecnologia, em portais da Internet. Pokémon Go será trending nesses. É, de fato, uma histeria.

 

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Por sorte, ainda não experimentamos seus efeitos aqui, na terra do Carnaval, então baseio a reflexão no que tenho consumido lá “de fora”.

O jogo apresenta-se terrivelmente viciante. Como todo MMORPG(massive multiplayer online role-playing game), cada segundo real é, potencialmente, uma conquista ou evolução.

Tal como em Diablo, game que nos fez assistir pessoas morrerem de estafa, bebês morrerem de inanição, e todo tipo de terror sci-fi, seu desempenho é reflexo de seu “empenho” – cada momento conta!

Hoje, jogadores já estão em níveis inimagináveis de evolução. Há ginásios, espalhados pelo mundo, sendo “atacados” em tremendas batalhas dia e noite. Pokémons estão sendo buscados incansavelmente, e sua captura é prioridade de vida de alguns jogadores.

O quê acontece com isso?

Que fique claro: não sou psiquiatra ou psicólogo. Minhas afirmações não têm qualquer embasamento profissional. Porém, não sei se é realmente necessário um CRP para enxergar o óbvio: a alienação e enclausuramento permanecem, mesmo fora dos quartos. As cabeças baixas e olhares fixos nas telas não são em quase nada diferentes do isolamento desses. Só diferem lugar e posição: o antes trancado, sentado hoje é ao ar livre e em pé. Diferenças puramente acidentais.

E dá p’ra ir mais longe! As pequenas interações humanas, motivadas pelas obrigações de vida, como pegar um ônibus, almoçar e estar no trabalho sofrem ameaça das possíveis aparições Pokémon, e dos possíveis desafios impessoais e totalmente virtuais.

Pokémon Go, querendo oferecer “saúde” aos jogadores – entre aspas porque estamos no Capitalismo. Nintendo/Niantic Inc. têm um interesse muito claro e conciso, que sabemos ser dinheiro (a companhia reverteu exponencial crescimento de valor de mercado, com o lançamento. Deixei de ser criança há mais de vinte anos) – está condenando ao afastamento social em tempo integral.

 

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Até que essa droga perca a graça, temos tempo e muita desgraça pela frente. E, ainda mais grave: a receita do sucesso já está escrita. Virão outros.

Pokémon Go é um marco da tecnologia a desserviço da humanidade, e nos custará muito caro.

Espero que a Nintendo e sua parceira estejam já trabalhando no Lexotan Go, para essa geração de zumbis esquizofrênicos que estão fabricando, motivando que larguem suas vidas em troca de se tornarem “Mestres” de uma porra que sequer existe.

Precisamos de humanos no mundo, mas a guita pede que se fabriquem robôs. E todo mundo aplaude.

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