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James Blake: A mágica do A.S.M.R.

Duas realidades distintas, quase alheias, mas as quais ninguém é capaz de descrever o potencial: música e tecnologia.
Ambas possuem horizontes infinitos, nasceram com o homem e, com ele, enfrentam a adolescência. Ambas alimentam mentes e espíritos há milênios.
Do que são capazes? Qual é seu real potencial? Duvido que descubramos tão cedo… E o quê nasceria da união dessas duas forças incontroláveis?
Vamos, juntos mergulhar nessas questão?

Que título é esse? Quem é James Blake e a quê se refere quando escreve A.S.M.R? Que mágica é essa?! Questionamentos automáticos! E a eles dedico toda a curiosidade, que, espero, motivem à leitura do que segue.

A.S.M.R. é um dos presentes da era pós-digital à humanidade. Uma jovem realidade, ainda em entendimento, com um leque ainda misterioso de possibilidades.

A sigla, pouco conhecida, se refere ao termo, em inglês, “Autonomous Sensory Meridian Response”, traduzindo, “resposta sensorial meridiana autônoma”, um neologismo pseudocientífico, que caracteriza um fenômeno, ainda em estudo, de resposta prazerosa dos sentidos a “gatilhos”, seja visíveis, audíveis, gustativos, tangíveis ou olfativos, produzindo formigamentos ou sutis arrepios na cabeça, nuca, costas, enfim, como qualquer experimentação cognitiva, subjetivos. Não possui, ainda, qualquer atestado científico, mas vem sendo explorada majestosamente pelo “early adopters” da curiosa e sedenta internet.

 

O assunto vem sendo timidamente tratado pela mídia, de um modo puramente superficial, quicá sensacionalista, chamado de “orgasmo sonoro”.

Muito mais do que isso, A.S.M.R. vem como uma das primeiras confirmações tecnológicas da afirmação aristotélica de que o conhecimento é a mais sublime e sólida forma de prazer humano. Utiliza a experiência sensível, o fenômeno de recepção cognitiva, como forma de profundo relaxamento e prazer, longe de apenas garantir um novo patamar para a solução do stress e ansiedade, tão próprios de nosso tempo, atesta e reafirma primitivas teorias de que o homem é muito mais que seu corpo animal. É sublime, tanto quanto se permita.

Me obrigo a prolongar a questão e vender a teoria do Estagirita a esse respeito. Simplificando tanto quanto possível, Aristóteles defende os principais prazeres humanos distribuídos em três degraus: a satisfação alimentar, da boa refeição e do vinho, que encanta os olhos, olfato, paladar como último degrau, o mais baixo. Em seguida, ao meio, o prazer sexual, que, por sua vez, encanta olhos, olfato, paladar (me julguem rs), audição, tato e, ainda, imaginação, memória, constituindo o segundo degrau. Terminando tal escala no mais alto degrau, segue o prazer do conhecimento, a união de todos os níveis de experimentação sensível, abstração dos caracteres individuais, construindo a ideia essencial do ser, o entendimento e assimilação da realidade, a apreensão de sua essência, aplicável a qualquer outro que compartilhe com esse a natureza.

Dada a explicação, embora pobre e simplificada, o conhecimento teria uma relação análoga com o prazer do alimento, uma vez que o “consumo” de um ser é o meio de prazer e a assimilação, ou seja, fazer desse parte daquele que o consumiu é seu produto. No caso do alimento, o sistema digestivo desconstrói a natureza anterior, analisando seus componentes químicos, e os incorpora. Já no segundo caso, os sentidos externo “consomem”, na realidade, o ser, entregam seu produto separado aos sentidos internos (teoria do Grego de que outros quatro sentidos intelectualizados, mais ligados ao cérebro que a órgãos expostos à realidade, completam a assimilação do real, no processo cognitivo, sendo: sentido comum, memória, imaginação e cogitativa), que processam seus dados e geram o “phantasmata”, unificação dos dados sensíveis em informação cognitiva, tratável, sintética, valorável.

Faz-se necessária a exposição do pensamento aristotélico a respeito do conhecimento como forma mais sublime de prazer para desvencilhar a técnica de A.S.M.R. dos conceitos empobrecedores aos quais tem sido limitada, de droga virtual, como foi rotulada em sua primeira aparição, nos anos 2000, com o software i-Doser, que prometia, por meio de estímulos visuais e sonoros, efeitos similares ao do consumo de substância químicas alucinógenas ou relaxantes, ou mesmo como reapareceu nos últimos meses, como produtora de orgasmos.

Não que a A.S.M.R. não possa produzir tais efeitos. No entanto, seu produto real é muito mais do que apensa isso. Nossa mente é uma criança curiosa, sedenta de informação e conhecimento, porém é cega, surda, muda e insensível, per se (um indivíduo que nasça privado de todos seus sentidos externos, sem contato algum com o real, morrerá assimilando apenas a escuridão que cerca sua mente), depende do produto dos sentidos para saciar sua sede.

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O que deseja-se com a técnica, no caso dos mais bem intencionados promotores, é a satisfação mental, concentração, relaxamento profundo, deleite físico, sentimento de paz, conforto, segurança, realidades tão alheias ao nosso modo de vida atual, tão caótico, aflitivo, estressante.

A A.S.M.R., em sua natureza ainda misteriosa, talvez venha a ser o Rivotril® do novo tempo, porém saudável, a cura do mundo mórbido de ansiedade e sofrimento mental. Quem sabe?!

Agora, exposto um resumo da tecnologia, questionado seu potencial terapêutico e, quiçá, curativo, fundamentada filosoficamente, ainda que de modo bem pobre, sua retidão de intenção e efetividade teórica, passemos ao exemplo prático mais bem executado e sua aplicação mais audaciosa, ha humilde opinião desse autor.

De quatro ou cinco nomes que desejaria indicar como padrinhos da A.S.M.R., dedico título e core do artigo a James Blake, músico e compositor.

James é produtor de música eletrônica, um britânico corajoso. Tem como diferencial em seu trabalho a utilização de ondas binaurais no background de suas produções.

Ondas binaurais correspondem ao sincronismo ritmado de duas frequências sonoras distintas, expostas uma a cada ouvido, a primeira em baixíssima frequência, ou vibração, e a segunda, paralela, tão alta frequência quanto possível, bombardeando simultaneamente o cérebro.

A cientologia tem se munido das ondas binaurais como atalho para o transe meditativo, o estado transcendental. Linhas mais céticas vêm utilizando do material como facilitador de concentração e intensificador/otimizador no processo de estudo, buscando melhor aproveitamento, memorização e entendimento durante a leitura. O que é unânime em toda aplicação da tecnologia é o profundo estado de relaxamento e introspecção, transformando as ondas binaurais numa das mais efetivas e fantásticas ferramentas de A.S.M.R..

Blake, de forma artística, utiliza, em suas composições, melodias repetitivas, profundas, em sua maioria com graves e melancólicas frases de piano, sobrepondo uma voz suave, em falsete, com ritmos de “drum machine” previsíveis, carentes de viradas que, por si, já geram familiaridade e senso de segurança.

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Porém, de forma magistral, concilia o belíssimo material artístico, já tão delicioso aos ouvidos que o captam, e tão confortáveis à mente que aprecia, com as tais ondas sonoras, sustentando sua música, provocando sensações sublimes, inefáveis, prazer intelectual, poeticamente, a libertação da frágil condição humana, abrindo portas na alma, mente, à criança sedenta da qual falamos antes.

A música, sozinha, já possui ilimitado potencial libertador, já sublima, instiga, constrói, quebra barreiras. Sozinha, a música já é ilimitada, já alimenta o espírito, proporciona viagens através do tempo, espaço, estado. Já emociona, nutre. Agora, intimamente unida ao uso de uma tecnologia com efeitos similares, no âmbito físico, torna-se incontrolável!

Antes de concluir o texto, desejando sinceramente ter seduzido a curiosidade do leitor a esse novo universo, peço um ato de confiança na boa-fé de quem escreve: dedique, nesta noite, cerca de minutos de seu tempo. Repouse confortavelmente, no máximo silêncio que consiga, reduza a iluminação do ambiente ao quase zero e, com seus melhores fontes de ouvido, ouça, a todo volume, a pérola “Limit to your Love” do genial James Blake.

Ao final, retorne e compartilhe, se conseguir definir, a excelsa experiência da revolução musical.

Como conclusão, disse Bono Vox: “Amor é um templo”, um lugar sagrado, um refúgio. Eu ouso completá-lo, afirmando: música é amor.

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