imagine
 

Imagine…

São tempos tão duros, tempos tão difíceis…

O ódio impera e, com o poder do alcance, presente da tecnologia, seus discursos se fazem mais ouvidos, conquistando seguidores diabólicos!

A cultura da maldade e da destruição do outro se aninham nos corações contaminados por monstruosos entendimentos tortos…

Cada interação humana passa a ser uma faca no coração, como se a esperança de um dia atingirmos a plena consciência de nosso ser se distanciasse, como se tornasse-se, aos poucos, impossível e uma vã utopia.

Dói. Dói muito. Mas continuo crendo que enquanto houver um espírito disposto, qualquer luta por esse ideal é justa e segue válida, e não cabe a ninguém desistir.

Para tal, convido a um exercício muito simples, que consiste em fechar os olhos, num cantinho escuro, no silêncio que a madrugada nos garante, permitindo à fantasia trabalhar na construção do sonho de mundo que tanto desejamos. John Lennon já nos preparou a matéria:

“Imagine que não há Paraíso. É fácil se você tentar”. Imagine não haver prêmio para a justiça, para a bondade diária, a retidão de intenção e ação. Não haver recompensa pela execução do certo.
A busca pela recompensa esvazia tanto o espírito da bondade que essa se torna oca, sem valor verdadeiro. É o sentar pelo biscoito.

“Nenhum inferno abaixo de nós”, como se evitar o mal só pudesse ser produto do medo do castigo… “Acima de nós apenas o céu”, de forma que nenhum de nossa espécie estivesse abaixo ou acima; de forma que não houvesse “escolhidos” e “rejeitados”, ninguém em maior ou menor escala de dignidade, todos lado a lado, lutando os dias pelos interesses comuns!

“Imagine todas as pessoas vivendo pelo hoje”, ignorando planos gananciosos, metas absurdas de acumular, acumular, acumular, fazendo os demais de gado para sua fortuna, destruindo e destruindo-se no processo…

“Imagine não haver países. Não é difícil imaginar”. Imagine não haver barreira e diferença de dignidade entre os povos, entre as multidões que dividem o mesmo e único planeta onde nós estamos! Imagine não haver ricos enquanto outros são miseráveis! Imagine que essas fronteiras que, de fato nem existem, não privassem seres humanos da paz, pela paz de outros, como se alguém fosse mais merecedor dos direitos que são de todos!

“Nada para matar por ou morrer por. E nem religião, também”. E não, não é a religião pura e humana, que nos acompanha durante essa imensa caminhada de quase duzentos mil anos, mas essas aí, institucionalizadas, pautadas no ideal hegemônico dos “superiores”, dos “mais dignos”, ditando regras e causando dor e sofrimento.

Como podemos chamar de saudável algo que bloqueia o amor por coisas pequenas, oferecendo dogmas que oprimem outros indivíduos, fazendo inimigos os diversos, sendo a diversidade nossa maior riqueza!

Quantos, sob o manto da “representação de um Deus”, destilam ódio e rancor dia e noite, com as bocas cheias de baratas, roupas alvejadas e mãos sujas de sangue.

Quem é esse deus que manda odiar?!

“Imagine todas as pessoas vivendo em paz”, e não uma paz fingida, uma “paz social” baseada em status e aparências, mas uma paz verdadeira, que compreende a fraqueza do outro e se faz apresentar a si como consolo. Uma paz que garanta sentimentos puros e transparentes, que nos motivem à busca incessante pelo bem de todos, já que todos são um só, no final!

“Imagine que não há posses”, mas não nos modelos que nos foram ideologicamente apresentados. Não que não haja posse de muitos enquanto uma instituição detém o todo, mas uma forma de posse que é a mais completa: tenho tudo porque não tenho nada. Tudo é de todos. Todos temos tudo!

É claro que é difícil de imaginar. Mas posso lembrar, aqui, de um cabeludo que andava descalço, usando apenas a roupa do próprio corpo, comendo o que havia para comer!

É a dita riqueza do desapego, de usar o que se precisa, sem nunca acumular…

Quantos imensos ofereceram esse pensamento?! Quantos acusaram quanto o afã por ter nos distancia do ser! Somos tão inclinados à possessão que aprendemos, inclusive, a fazer pessoas nossas propriedades, em nossas relações!

Cada coisa que “temos” e não “usamos” nos faz menores…

“Me questiono se você é capaz” desse desapego. Aliás, me questiono se eu sou capaz desse desapego.
Mas não é de pequeno que o pepino se torce? Não é de grão em grão que a galinha enche o papo?

“Sem a necessidade de ganância e fome”, dois opostos absurdos e monstruosos, que nos levam a destruir comida enquanto crianças morrem de inanição… Não é estúpida essa economia da escassez?! Essa que queima diamantes, talvez uma das matérias mais preciosas do planeta, para garantir pouca oferta, muita demanda e elevação de valor de compra?!

“Uma irmandade humana” seria tudo quanto precisamos, tudo quanto aspiramos… Sem ódio ou exclusão baseada em fatores mínimos, como tantos e todos que vemos diariamente…

Que tipo de justificativa pode se apresentar a odiar alguém por quem se deita com esse?! Que diferença faz na sua vida?! Que teor de doença é necessária para acreditar alguém menor pela quantidade de melanina em sua pele ou por como são seus fios de cabelo?! Ter uma vagina ou um pênis?! Eu juro, eu não entendo! Duvido que alguém seja capaz de explicar!

“Imagine todas as pessoas partilhando todo o mundo” que é nosso! Não meu ou seu! Nosso! Quem perde com a extinção de uma espécie somos eu e você! Quem perde com a poluição, destruição do planeta, somos eu e você! Quando for inabitável para você, será também para mim! Será para todos nós! Por quê diabos alguém se entende mais ou menos responsável pelo destino disso tudo?!

“Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único.
Espero que um dia você se junte a nós, e o mundo viverá como um só!”

Paz, muita paz… E, junto dessa, amor, daqueles que transborda… Desse que está transbordando dos meus olhos agora…
Paz e amor…

(letra de “Imagine”, de “John Lennon”)

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