fretless1
 

“Fretless”: o renascimento da música primitiva

Música, a mais livre, mais atemporal, mais sublime forma de expressão humana. Máquina do tempo, capaz de quebrar a barreira da sucessão dos anos e retornar do exato ponto onde parou séculos atrás, ignorando qualquer inovação ocorrida, ou mesmo se tornando imutável, apesar dos anos que passam.

Influenciável, obviamente, pelo momento humano presente, a música nunca foi muito fiel ao corrente. Ela é livre em sua sublimidade.

Tal qual mulher de Gêmeos, se descobre enquanto existe, não tem uma natureza definida ou, pelo menos, não devia.

No decurso da história, a música foi regulada, e, em consequência da regra, limitada.

Perto do início do segundo milênio, Gregório Magno, Papa, enclausurou a música a sete tonalidades, e, no máximo, cinco mais subtonalidades, que acostumamos chamar de bemóis/sustenidos. As sete tonalidades, conhecidas, ainda que de modo leigo, são as setes notas da escala (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si), mais cinco subtonalidades, os bemóis e sustenidos de cada nota (tons intermediários entre as notas, menos entre Mi e Fá e entre Si e Dó).

A proposta de Gregório foi ótima, transcrever o canto sacro para a posteridade. No entanto, foi simplista. Hoje, assumimos que a mesma escala, se cresce, vive bemóis, e se decresce, sustenidos, ou seja, são a mesma nota mas com um nome que varia relativamente à progressão.

 

fretless2

 

No entanto, não só os nomes são diferentes, como as tonalidades sonais deveriam ser! Não só o Ré Bemol é diferente do Dó Sustenido em nome, como em tonalidade: um é primo e vizinho de uma nota, enquanto o outro, de outra.

Começamos, há pouco, mais um renascimento da música primitiva (como há séculos não víamos), nascida nas primeiras civilizações, das primeiras expressões sonoras puramente humanas.

Hoje, presos aos trastes dos violões, às teclas do piano, a música não mais representa o espírito humano. Fomos obrigados a revisitar a história e, nela, encontrar caminhos alternativos para a expressão. E, no Oriente, descobrimos que entre tom, semi-tom, existe um universo inexplorado.

E, então, arrancamos os trastes (entenda por traste uma barra de níquel no braço do instrumento, que delimita a tonalidade), produzindo nossos instrumentos “fretless”, sem os tais trastes, modernos, elétricos e enfim, mas sem elementos limitadores das tonalidades. Danem-se os trastes, danem-se as teclas: há outro universo, sustenido e bemol, não compreendido numa escala de sete mais cinco, que precisa soar no universo.

Desprendidos do conceito “moderno” da música quadrada, estamos reconstruindo as escalas, com dezesseis milhões de tons, e, num esforço descomunal, faremos, da música, pura e simples expressão da alma humana, como nunca deveria ter deixado de ser. Essa nova cultura, que nem nova é, e que não ousaria chamar de “movimento”, ainda é um bebê, mas vem sendo bem alimentado de curiosidade.

O primeiro instrumento musical, a voz humana, nunca teve trastes e teclas, e foi, categoricamente, a construtora de toda musicalidade.

 

fretless3

 

Para fugir da teoria e da suposição, o exemplo mais perfeito de todo o dito é Ensemble Organum, grupo francês de canto erudito, fundado em 1982 com o intuito de reviver o canto medieval e romper a barreira da notação fechada, buscando alcançar ao máximo a musicalidade antes da cadeia de tons.

Ilustro o exemplo com uma versão retrabalhada do canto gregoriano “Salve Regina”, executado por Ensemble Organum num modo que estamos aprendendo a chamar de Canto Templário, muito mais livre e rico em sonoridade que a versão de Gregório. Bom proveito!

 

CC BY-NC-ND 4.0This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License. Permissions beyond the scope of this license may be available at Mario Feitosa - Políticas.