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Fazer amor com as notas

Eu imagino o que devia ser sentar-se ao piano, vendo Tom e Chico trabalharem…
Imagino o modo como um apontava uma harmonia e outro respondia com um verso.
Tento supor o deleite ao parirem uma peça pronta…

A composição é uma orgia artística maravilhosa!
Deitam-se, sobre a mesma cama, poeta, poesia, instrumentista, instrumento, acordes, harmonia, canto e cantor
Não tem nenhum termo que represente a realidade senão “suruba”, e uma puta d’uma suruba deliciosa!

Conheci a composição aos quatorze.
Dediquei versos e versos e versos a um amor platônico. Preparei melodias, que pudessem falar por mim o que não era capaz rs. Lembro-me com saudades…
Ao provar a decepção, acreditando que aquilo ajudaria a matar mais rápido o desafeto, joguei tudo fora (que idiota! ahuauhhuahua).
De todo modo não passavam de bobagens e rimas estúpidas, com dois, três acordes.

No passo do tempo, aceitando como certa a condição de matar-se para viver, de esconder o ser no baú para parecer o que dizem ser o certo (regra à qual somos todos expostos, vendida como verdade), enterrei esse prazer no jardim. Trabalho, trabalho, trabalho… Não se tem mais tempo p’ra essas bobagens.

No entanto, como a Terra é uma linda, seguiu rodando. Com mais passos do tempo, resolvi cavar o jardim e ver se achava tudo que tinha enterrado lá. E não é que achei?!

 

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Fato é: manifestações artísticas dependem de uma soberba gigantesca uauhahuauhhuauhauh.
Imagine o que é dizer-se “compositor” no mundo onde andaram Mozart, Palestrina, Tchaikovsky, Tom, ainda anda Chiquinho
É diferente de manifestações pragmáticas. Nessas, basta uma formação universitária para o ser tal. Ninguém precisa ser minimamente parecido a Stephen Hawking para ser Cosmólogo, não é?

Agora, ignorando-se cursos superiores de Música(que, convenhamos, são fabriquinhas de robôs rs), onde fica o diploma de Compositor Popular?!

Aí que está! Dizer-se Compositor é mais difícil do que ser, pela razão exposta acima.
Porém, querendo ou não, há de ter-se a soberba necessária para dizer-se tal.

Soberbo, vou contar um segredo que envolve a técnica (peço que não espalhem, OK?):

Música não é uma arte, pessoal. Juro!
Arte, por definição, seria um conjunto de técnicas de execução de tarefas para um produto prático ou teórico.
Música envolve arte enquanto falemos de canto, de execuções de instrumentos, teoria sobre harmonias e escalas, afins. Mas esses elementos, mesmo juntos todos, não a definem (até porque é impossível definir algo ilimitado).

A Música é uma ninfa, uma filha de Afrodite. É um espírito vivo e pulsante, que voa pelo ar e visita os seresteiros às madrugadas. Ela promove as orgias anteditas, e se deleita no processo.
Ao final, havendo doçura das partes, ela entrega o fruto de seu ventre para registro.

 

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Há, sem dúvida, sátiros que a violentam. Mas é claro seu desgosto quando vê-se o resultado, sem alma, abortado por ela… Esses não merecem sequer a menção.

Tudo depende da doçura, da doação de corpo, mente, mãos, pés e garganta, para posse dela… Tudo depende de entregar para receber, de dar para ter, de aceitar. Docilidade…

Assim, tendo esticado até demais, compor é um deleite, é fazer amor com notas, que se contorcem em tesão no comprimento das escalas…

Compor, meus queridos, é fazer amor com as notas.

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