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Existe Cultura paulistana? Paulistana mesmo? – Marginalização da Arte

Em tempos de questionamento da natureza da Arte, do que é Cultura, contra-Cultura, do “pulchrum” que “me agrada” sendo OK, enquanto qualquer natureza que não “me seja bonita” vira escândalo, eu me pergunto: existe Cultura paulistana? Aliás, existe alguma que não esteja marginalizada por aqui?!

Falo sem rigor científico nenhum mesmo. Confesso.
Sendo bem franco, não penso ser minimamente necessário citar ninguém que endosse a fala, especialmente por estar questionando pitacos populares que, basicamente, pautam-se no “eu acho”, como se algo tivesse sido perdido.

Eu me lembro muito de uma cena de um filme que amo, que costumo revisitar de tempos em tempos, já que é um baú imenso de questionamento, “Sociedade dos Poetas Mortos”.
Nela, o professor John Keating, interpretado por Robin Williams, ordena que seus alunos rasguem as páginas que tratam a visão acadêmica da Poesia – tentando enjaular em métricas matemáticas o que é produto do espírito humano elevado, livre -, concluindo, sentado no chão, que “não lemos e escrevemos poesia porque é bonito”, mas sim “porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão”, complementando que “medicina, advocacia, administração e engenharia, são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, beleza, romance, amor… é para isso que vivemos”.

E quê pretendo trazer com essas afirmações da personagem?
É simples: nada impede que a Poesia, nesse caso, seja tratada cientificamente, enquanto estilo literário. Não existe uma proibição da definição de métricas, escolas, regras e afins. Jamais.
O que nunca pode acontecer é, nem por aqueles que produzem a manifestação tampouco pelos que consomem, a petrificação da realidade no conceito. O aprisionamento.

 

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Poesia, enquanto definível, é a beleza percebida. A maneira como essa será expressa é o que menos deve importar, contando que imprima e espalhe o belo.

Se formos analisar, academicamente, o mais “seguido” poeta do Facebook não é nada comparado a Dante Allighieri. Porém, quem hoje se alimenta do Italiano?
Nota-se que não interessa se, com o passo dos séculos, a culinária perdeu sua magnificência contanto que continuemos comendo?!

Já, refletindo sobre isso, vejo um atolamento muito incômodo na concepção corrente, totalmente anacrônica, com relação às manifestações culturais contemporâneas.
Há pouco li um texto polidíssimo (de um Advogado) sobre a relação do “grafite” com seu conceito de Arte, consumido pela terceira leitura de “Grombich” (sic) – sim. Ele fez questão de dizer que estava lendo pela terceira vez “História da Arte”, porém não conseguiu acertar o sobrenome do autor… -, com a manifestação urbana. Se cabe minha opinião, puro chorume bem escrito.

E nisso eu me pergunto: faz algum sentido prender-se à obsessão de um historiador pelo Renascimento para avaliar uma natureza do séc. XXI?!
Faz-se, por exemplo, adequado usar Palestrina para julgar uma música do Tiago Iorc?! (Assim como usar Dante para o poeta do Facebook?!)

Você só compraria um apartamento se sua construção fosse Gótica?! Não parece patético?

Por isso tudo venho a levantar o questionamento, vendo tantos paulistanos amantes do passado, se temos, aqui, na queridinha do Brasil, algo que seja culturalmente nosso de verdade, que justifique esse ancoramento no Medieval, e me parece que não… Mas vamos ver.

Penso no Pará.
O Estado, fortemente abraçado às raízes culturais indígenas, adaptou a maniçoba, o caranguejo, o camarão, o clima, o cristianismo, e hoje respira beleza e a manutenção adaptável do belíssimo em suas festas, suas figuras míticas, sua devoção.
Do Sírio de Nazaré aos seis dias de fervura da folha de mandioca, celulares e cera de velas convivem lindamente na procissão dos andores, mostrando como o que é verdadeiro perdura, ainda que receba as mudanças que a sucessão do tempo pede, e até leva “Techno” no nome da renovação do dançante Brega…

Viajando ao Nordeste, de ponta a ponta, temos o berço da Música e da Literatura de gente como os irmãos Ramalho, Alceu, Gonzagas, Suassuna; com os bonecos de Olinda, o frevo, o axé, o Carnaval mais quente de todos os cantos do planeta.

O Sul não larga o poncho, nem o chimarrão. Não perde nunca o brio pela Guerra Civil sustentada pelas unhas até não quererem mais…

O Centro-Oeste guarda os gatos, as toadas, o berrante, tudo que cabe ao Sertanejo, seja dentro ou fora da viola de dez cordas.

Mas e São Paulo?!
Essa São Paulo, que arrota tão fétido orgulho pelo produto de gente que sequer sabia que as Américas existiam, ao ponto de querer julgar o nosso pelo deles?!

Quê que tem de cultural em São Paulo?!

 

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Ah, tem a melhor pizza do mundo (que nasceu na Itália).
Tem as obras de Aleijadinho em museus religiosos (importadas de Minas Gerais).
Não podemos esquecer da Catedral de São Bento (montada por missões eclesiásticas europeias).
Mas tem, também, as peças de Mozart, na Sala São Paulo de Música Clássica (compostas por ele na Áustria).
Pera lá! E as casas de Jazz?! Ora, importadas dos EUA…

Disso tudo tão clássico que temos aqui, qual parte é nossa? Qual parte é mantida por nós?
Olha… Vamos ser sinceros? Nada.

No entanto, vamos olhar para o que não é nem de perto clássico, mas que é tão, mas tão nosso, que chega a dar vergonha em muitos?

Temos o funk ostentação, adaptado do Rio, mas feito aqui no quintal de nossas favelas;
E as recitações de Ritmo e Poesia, na Praça Roosevelt, com garotos e garotas de espírito imparável;
O break, que até nos semáforos fechados é dançado, buscando aquele trocado que o “patrão” tem no painel do carro;
Tem também o bolovo dos botecos pé-sujo (por causa do óleo da chapa);
As peças teatrais de orçamento zero, que nem cenário têm, mas fodem o psicológico dos que se dispuserem a sentar a bunda nas cadeiras duras dos cubículos;
E o pagode com feijuca, que sempre exibe algum maldito violonista de sete cordas, daqueles que rouba a cena;
E os pichos inimagináveis, que precisariam de helicópteros para serem feitos, só p’ro favelado morrer de orgulho de não ser empatado por ninguém, quem dirá superado;
Os shows de MCs, feitos de graça nos campões de futebol das favelas (que muitos nem sabem que existe);
Não vou deixar de falar dos violinistas da CPTM, nem dos grafiteiros da 23, nem dos peruanos do Centro, nem dos miçangueiros da Paulista, nem das bandinhas falidas, que fazem cover de Punk, nem de quem ainda vive o movimento…

São Paulo respira Arte, na sua Cultura, mas respira puxando ar, forçando a cabeça p’ra fora da sarjeta.
A Cultura verdadeiramente paulistana nasce, cresce e se reproduz na favela, e vai tentar fazer dinheiro no Centro, enchendo o saco da aristocracia assalariada, que ainda não entendeu que é pobre…

E daí que Beethoven é melhor que RAP?! Prefiro pegar trem com o Mano Brown!
E quem liga se tudo de bonito que “a gente tem”, em paulistanês, vem da pobretada?! Você liga?!

Se sim, te digo uma parada, véi: o “baixo clero” da Arte, da Paris de 30-40, ia gozar nas calças se vivesse uma madrugada com os artistas marginais da capital informal do país. Mas você aí, todo pomposo, se nega a ver e aplaudir porque quer mesmo é babar ovo de gringo…

A Arte respira por aparelhos aqui na “Sampa”, mas enquanto você acha que está falecendo, ela tá mesmo é fazendo escola.

A História depois vai contar p’ra nós.

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