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Elle est ZAZ

A conheci pelo Facebook, às bordas do Sena, cantando “Je veux“, com um violonista e um baixista.
A descrição do vídeo perguntava “quem é ela“, referindo a um tal “blues bem sincopado“, embora não haja qualquer rubato na canção.
Coisa engraçada, diria. Mas não digo mais. Aprendi que os que catalogam canções sequer sabem o que falam.

Enfim.
Sincopado, quadrado, tanto faz.
Com o ritmo e a voz, em casamento perfeito (coisa da Disney), ZAZ nasceu para a putanidade da baixa música europeia.
“Putanidade” parece um termo ruim. Concordo.
Menciona um universo de imoralidade, vendição. Coisa de pulgueiros.

No entanto, a bela arte francesa, dos 40, não nasceu da promiscuidade?
Não são os cabarés e o ópio combustíveis do moderno belo?

Pois bem.

Largando a encrenca, que adoraria retomar (embora tenha feito tema de tudo que escrevi no último mês), foco em ZAZ.
Direciono, na pantomima da apresentação, os holofotes a ela… O tesouro legado…

 

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ZAZ canta seu próprio, mas não se limita a tal. Recanta, reencantando, os clássicos que a morta, porém nada fétida, era de ouro francesa presenteou ao mundo: ZAZ canta Piaf, a bêbada drogada, a rainha da belle époque do rádio, do nascimento da televisão.

Nesta madrugada, quero focar em ZAZ cantando Piaf. Quero falar dela cantando “Sous le ciel de Paris”.

A canção é simplérrima. Corre sobre uma harmonia menor, de campo limitado.
Edith entoava ao Sol, nem variando.
ZAZ resolveu brincar.

Ela, em sua rouquidão aveludada (se é que o diabo permite), lançou a canção ao Ré, desmontando a harmonia ao meio, na variação progressiva do que, para nós, soa como a elevação espiritual, não proposta na versão original.

Sua banda se mostra composta de violão de seis, encordoado ao aço e tocado às polpas dos dedos (enquanto as unhas da direita seriam esperadas, caso a influência moro-otomana fosse vigente, como no flamenco), baixo upright, ganhando corpo com bateria comum (chimbal, caixa, dois tons, surdo, ataque, condução e bumbo), às “escovinhas” (baquetas de baixa presença), acordeão (ou harmônica, a quem preferir) e clarinete (divinamente tocado e brincado).

 

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No que me cabe dizer, ZAZ transformou uma bela canção antiga em uma peça inesquecível, perpetuada, na eternidade da Internet, por um videoclipe fantástico, que casa animações de grafites com as paisagens parisienses.
Pessoalmente, não sou capaz de ouvir sem querer morrer, tamanha força do que se apresenta; tamanha reapresentação do já conhecido, modulado, remodelado para o corrente…

Ela, a jovem cantora francesa, que conheci (por Internet) às margens do Rio Sena cantando “Je Veux”, a cada nova exposição se apresenta como o “novo velho”, imortal, ou a renovação do que nos roubou os corações, em outros tempos.

Os olhos apaixonados deveriam (e devem) virar-se para ela, enquanto, no Pop Europeu, nada se apresenta tão excelso.

Recomendo assistir. Aliás, peço que assistam…
É divino!

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