palhaco
 

E se falássemos de humor?

Nessa semana, onde uma oportunista da retórica do ódio, que ganhou faminha lisonjeira em redes sociais, esbravejando palavrões e absurdos lógicos, foi vaiada fortemente num “show” de sei-lá-que-caralho deva ser um “show” desse tipo (senão de horror!), penso caber retomar conceitos básicos sobre o famigerado “humor”.

“Humor”, como tudo na vida, abraça uma ou mais definições.
O termo aceita a definição de “estado de espírito”, de “fluídos corpóreos”, de “jocosidade”, de “capacidade de entender o cômico” e, o mais acertado conceito, o de “capacidade de, arquitetonicamente, modular a realidade à ironia”.

Ironia é uma arte. Ironia é a arte de, dizendo X com palavras, expressar o Y. É uma arte tão fabulosa, de técnica tão complexa, que aparenta ter morrido no presente-burro, no tempo da informação desinformada… É meio triste, eu sei, mas é torcendo o pepino pequeno que mudamos nosso amanhã.

Entendendo, desse modo, o humor como a arte de transportar, pela ironia, a concepção da realidade à crítica dessa, ouso afirmar ser esse uma das mais complexas artes – abraçado à teatralidade (o inferno das expressões artísticas).

Hoje sou dodói da cabeça. Por N questões – que não vem ao caso – não sou mais capaz de encarar plateia se não tiver um violão (ou meu amado baixo) na mão e doses de álcool na cabeça. Porém, não consigo esquecer das oficinas de Teatro, de como toda a mágica dependia de tantas e tantas variáveis que, faltando uma, nunca viriam os aplausos.

A teatralidade, como expressão artística, é o Diabo dos detalhes.
Quem vier a dominar o malabarismo das ditas variáveis (expressão corporal, projeção vocal, decoro de texto – em senso de acatar o roteiro prescrito -, improviso, fluidez e quinhentas outras) tornar-se-há (Temer curtiu a mesóclise) um gigante dentro dessa…

Penso na ironia de forma igual: é a teatralidade expressiva que convence, comove o pensamento e, ao mesmo tempo, planta o verme da consciência.

Humor me vem à mente e, automaticamente, penso em Chaplin.
Chaplin foi um rei na crítica ao “status quo”, de forma “velada”, “discreta”, no entanto, terrivelmente dialética!

Consigo, permissivo, lembrar de dois ou três nomes, como Anísio, Dercy e Jô, mas ninguém, ao meu ver, empatou Chaplin nessa arte.

O tal “humor”, que Roterdã tão maravilhosamente expressou em “Elogio da Loucura”, é uma coisa tão complexa que, mesmo séculos depois, mesmo por escrito, me faz virar piada pública – não consigo não gargalhar lendo a obra! -.

Eu acabo dando um peso e uma força tão absurdos ao humor que quase choro quando ouço alguém chamar um piadista de merda, um comediante X, um escroto (Danilo Gentili popou aqui) de “humorista”.

Não, caralho! Comediante é qualquer “bobo da corte” que se tombe no chão, arrancando risos de idiotas. Qualquer um que diga o óbvio de forma tal que arranque risos. Comediantes são fracos que sabem a receita de arrancar risos de fracos!
Por Gezus, não confundamos comédia com humor! Humor é mais!

Humor é te mostrar sua vida de modo que seu riso saia amarelado, forçado, chacoalhando seu espírito ao “motus”, à mudança!
Humor te come o juízo, coça o cu e leva ao questionamento, enquanto a comédia te relaxa da merda presente, liberando hormônios do conformismo no seu cérebro…

Humor é mais!
Humor busca mais!
Humor move! Motiva!

Eu lembro de Chaplin e me irrita o como o humor morreu, emburrecido pelo tsunami da burrice, que aprendemos a chamar de “lar”.

Onde foi parar o humor?

Parafraseando Renato Russo: “Quem inventou o humor?! Me explica, por favor!”

Hoje fui “presenteado” com a expressão “humorística”: “O Brasil tem tantos desempregados que os sites de emprego têm mais acessos que o Facebook” (ou qualquer coisa parecida – me nego a ver de novo para ser literal). Que bosta é isso?! Quando o óbvio virou engraçado?! Não é o “plot twist” da piada que arranca a gargalhada?! Meu cachorro teria bolado algo melhor!

A isso rendemos o “humor”?! Se sim, meu humor – em outra leitura – foi pelo ralo.

Será que nos tornamos tão acéfalos a ponto de mijar as calças com piadas do óbvio!?
Será que o humor morreu, junto de nossa inteligência?!
Será que apenas nos cabe ouvir vociferações porcas, julgando serem “engraçadas”?!

Como escreveu a banda Playmobille em “Carlito e o Precipício”: “Carlito, que amava sem desejo, fez da sua casa sólida toda se desmoronar…”. Será que desmoronou mesmo?!

Por favor, me digam que não!

Quero humor, já que o mundo não sabe amar! Mas humor do bom, de verdade!
O mundo precisa de “humor”!

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