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Dória, me conta do pingado

Mesmo sabendo que ele nunca vai ler, quero discorrer sobre a cara de nojo, e sobre o quanto ela é sincera, acusando a porquice de uma mentira tão, mas tão mal contada, que não engana nem ao próprio mentiroso…

Dória, tudo bom?
Como vai você?
E a família?
E a candidatura à Prefeitura de São Paulo?

É… Então… Tou te perguntando mesmo porque vi uma cena meio estranha essa semana.

Você no ônibus, tudo bem. É normal. Precisa, claro, mostrar aos 68% (estimados) de paulistanos C, D e E que você entende sua realidade.
Não é apenas justo, como é bonito. Sabe? João Dória Jr., um príncipe da high society, um lord, num ônibus.

Mas aí você inventou de ir a padoca, man. Padoca – caso não saiba é a gíria paulistana para “Padaria”, que é um estabelecimento que vende pães, bolos, confeitaria, serve de boteco, quando não tem outro lugar, de ponto de encontro, almoço PF ou buffet mequetrefe… Padoca é, sinceramente, um templo da gastronomia paulistana – é a coisa mais paulistana que tem no mundo. Sim! Vende bolacha recheada e mesmo “águesal” na Padoca! Vende miojo, molho de tomate, refri, breja… Vende tudo!

Não vou mentir: eu nem te conheço. A única vez que nos vimos e falamos foi num elevador do Plaza Iguatemi, onde “trabalhávamos”. Eu vi aquela figurinha pequena e envelopada de caxemira, com os cabelos mais bem penteados do planeta, barba feita com espadas japonesas e um cheiro esquisito de colônia francesa. Eu, eu mesmo, que entrei com cabelo todo cagado, cortado por mim mesmo, um Olympikus surrado e o resto da indumentária comprado na C&A, a preço de fábrica, quase, te vi lá.

Sei lá. Entrei no elevador, que subia dos estacionamentos, enquanto eu tinha descido do trem e andado por quinze minutos, suado e surrado, e te vi lá. Nos olhamos, como que um contato imediato de quarto grau, sorrimos fingindo estar tudo bem, trocamos “Bom dia!” e seguimos.

Insisto: não te conheço, e apenas consigo me prender à pequena figura embonecada de caxemira – e não que isso seja um problema. Apenas não corresponde em nada à realidade de São Paulo… Acho justo dizer. Posso, né non?

Voltando, eu vi a foto do pingado… Você estava com a cara de nojo que eu teria ao beber um copo de merda… Eu tenho certeza que se pusessem uma arma na cabeça de alguém amado, me dizendo que o matariam se não bebesse um copo de diarreia, eu beberia, e faria a mesma cara que você fez.

Mas não era diarreia, Dodô… Era um pingado!

Pingado paulistano é um correspondente do queijo de coalho mineiro, do acarajé baiano, da rapadura pernambucana… O pingado é uma dose parruda de amor, em copo de pinga! É café queimado, de cafeteira industrial, com leite tipo C fervido… Pingado é o melhor café-da-manhã de qualquer ser humano dessa terra paulistana, que acorda cedinho p’ra pegar o trem, ônibus ou metrô no melhor horário, horário esse que te permite ir em pé e esmagado, mas sem perder partes do corpo.

Sacou que pingado é um elixir, né, Dodô? E você bebeu como quem bebe diarréia… Foda, não?

E vou além: você bebeu pingado numa Padoca, ou seja, num Templo. Não sei se é judeu, mas sua culturadíssima cultura vai te permitir entender a analogia: a Padoca é o Templo de Salomão. Você tomou o elixir da vida paulistana no Templo de Salomão (não o daquele velho safado da Universal. O de Jerusalém mesmo). Sabia que existem “sinagogas” do pingado, espalhadas pelos pontos de ônibus e estações de metrô e trem?

Pois é. Eu duvido. Mas te conto:

Algumas pessoas, desempregadas, ou mesmo buscando apoio de renda, já que os pacotinhos de caxemira feito você acreditam no Livre Mercado com salários a preço de banana, pela saúde do negócio, não as permitem acumular dinheiro por mérito, montam barraquinhas ilegais de café de manhã, com bolo de massa puba – coisa mais maravilhosa que minha ascendência nordestina me apresentou -, fubá, chocolate de caixinha, cenoura com nescau, café e leite, ingredientes do “Pingeaux” paulistano, mas não tão requintados (leia-se que estão requentados ou frios, pela dificuldade de oferecer a iguaria na rua, sem a infra da Padoca)? Não sabia. Seja sincero consigo.

Pois bem, temos “sinagogas” do pingado, e adoramos. E tomamos com gosto, porque nos aquece o coração e a alma, para encararmos o inferno da vida C- em São Paulo, do subúrbio aos polos comerciais, onde trabalhamos.

Entenda a paulistanidade, Dodô, como uma religião. Entenda a Padoca como nosso “Templo de Salomão”, e as barraquinhas de café-da-manhã como nossas sinagogas. Você blasfemou a paulistanidade!
Você fez cara de nojo ao tomar o nosso pingado!

Sinceramente, condene meu desrespeito por chamar você figura caxemerizada: não é que você não pode ser Prefeito de São Paulo, por não ter ideia do que isso significa. Você sequer é um Paulistano!

E quer me provar que estou mentindo, ou pelo menos que estou enganado? Será um prazer conversar contigo em qualquer Padoca do Grajaú, Cocaia, ou do bairro suburbano que escolher.

Só não vale fazer cara de quem bebe merda.

Te aguardo.

 

Foto escatológica de capa por Edilson Dantas / Agência O Globo

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