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Do “Over” ao “Underestimated” em dez hits

Uma coisa é inegável: por melhor que seja a música, sua repetição incessante nos faz pegar nojo dela.
No entanto, concorda que bastaria afastar-se dela por um tempo para conseguirmos retomar uma apreciação menos negativa?

Trata-se de um fenômeno universal e, diria, incombatível essa tal tendência a repetir “aquela música” até o ridículo.
Acontece que, quando ela “fala” conosco, seja por letra ou melodia, nasce uma quase obsessão, e acaba-se exagerando na dose.

Se o vício for coletivo, então, aí que não paramos nunca mais de ouvir a caralha da música!!! Ela toca na novela, nos rádios dos carros, nos bares, nos ringtones, nas casas dos vizinhos rs; toca em cada puto canto do planeta que você venha a imaginar.

Essa “onipresença”, é o que chamei de “overestimation“: a “superestima“.
Passa-se, nesse efeito, a dar tanto valor, mas tanto valor àquela música que, não correspondendo à realidade, faz que ela se desgaste, vire cafona.

Quando vemos, em pouco tempo a coisa muda de uma estima exagerada para o total desprezo e, até, o repúdio da coitadinha (“underestimation“, a subestimação).

Quantas não são as músicas que, olhando atentamente, são muito boas, mas tornaram-se irritantes como resultado de seu desgaste?

Por tal, vamos dar uma nova chance a alguns hits que marcaram as mais diversas situações e explodiram nas paradas de tal modo que se chamuscaram?

 

1- More than words, Extreme

Quem nunca curtiu aquele namorico de adolescência ao som de “More than words” que atire a primeira pedra.
Lançada no comecinho dos anos 90, “More than words” não só virou “top one” nas paradas de sucesso das rádios e programas musicais de televisão, como foi regravada por cinco bilhões de artistas e bandas – até versão em português a coitada recebeu -.

Uma letra romântica, arranjada numa melodia constante, sem variações, quase repetitiva (o que, sinceramente, não é ruim, já que gera familiaridade), completamente acústica, com uma excelente produção vocal. Esses são os elementos que, imagino, arrebataram os corações apaixonados do velho mundo.

Hoje, “More than words” está enterrada em dois cemitérios: o do “one-hit wonder” e o da cafonice.
Nem o cover mais fuleiro do planeta quer tocá-la, numa apresentação, afinal seria bastante rejeitada rs.

Apesar de tudo isso, ela segue sendo linda, especialmente se a compararmos ao lixo industrial que costuma sair hoje.
Não só merece ser absolvida de sua “underestimation” como pode, perfeitamente, voltar às playlists mais românticas de nossos celulares, por tratar-se de uma joia.

Bora ouvir:

 

2- Faroeste Caboclo, Legião Urbana

Minha nossa senhora. Falar esse nome em voz alta pode até ser perigoso, tamanho nojo tomou-se dela.

Lançada no final dos anos 80, Faroeste Caboclo foi repetida até a exaustão.

A canção longa (mais de 9min) conta vida e morte de João de Santo Cristo (o que não tinha medo, como todo mundo dizia quando ele se perdeu), misturando ritmos que perpassam o pop rock, o rock nacional, o reggae e, até, algo mais próximo ao hard rock.
Todo mundo que aprendeu a tocar algum instrumento nos últimos tempos do século passado já soube tocá-la rs.

Muito mais do que por sua overdose no lançamento, Faroeste Caboclo morreu de morte matada, e das bem cruéis.

Acontece que perto de dez aniversário de seu lançamento, Renato Russo, autor da canção e vocalista da Legião Urbana, veio a falecer, e a MTv tratou de, com todas as suas forças, esgotar qualquer carinho possível da nação roqueira da época por Legião Urbana.

O acústico da banda foi veiculado e veiculado, e veiculado, e veiculado de novo.
Quem viveu aquele período, hoje não quer saber de Faroeste Caboclo nem pintada de ouro!

Porém, especialmente pelo trabalho de arranjo progressivo, que manifesta os sentimentos das personagens em cada novo ato, continua sendo um marco no rock nacional.
Também merece mais carinho do que temos dado rs.

E bora colocá-la na vitrola:

 

3- I will always love you, Whitney Houston

Tema do longa “O Guarda Costas”, com Whitney e Costner como protagonistas, “I will always love you” arrancou boas lágrimas e estourou tímpanos nos anos 90.

Pop doce, mas muito doce, a canção não só foi abusada pelas rádios, programas de videoclipes, como também por todos os programas de caça-talentos das últimas décadas.

Já não possuindo a melhor qualidade do mundo, por basear-se principalmente no alcance vocal de Houston, sua reprodução até o cansaço tratou de enterrar o hit no desgosto coletivo.

Mas não façamos tal injustiça com a obra.
Vale a pena, sim, volta e meia dar aquela ouvidinha, porque, embora não seja maravilhosa, é uma música muito bonita.

Vamos lá:

 

4- Smells like teen spirit, Nirvana

Bem a cara do Nirvana, “Smells like teen spirit” é musicalmente pobre.

Power chords mequetrefes, vocal berrado, solo infantil, a canção atacou os adolescentes por seu ritmo vivo e explosivo.

Tocou até não poder mais no começo dos anos 90 e acabou tendo a morte motivada pelos mesmos algozes de Faroeste Caboclo: os produtores da MTv.
Em 1994, Kurt Cobain suicidou-se, e a emissora fez questão de abusar da comoção do público para explorar a tragédia.

Acústico veiculado a cada par de horas, clipes em looping eterno, nos programas… Que canal mais desgraçado, não?!
Serial killer, chamaria.

Mas sejamos sinceros: essa música é uma manifestação muito honesta da rebeldia juvenil, e pode bem ser tratada com carinho – carinho! Os restos mortais de Kurt choraram com a “versão” de Cláudia Ohana, no programa do Jô Soares! Chutar cachorro morto é muito feio!

Escutemos (a do Nirvana, claro!):

 

5- Nothing else matters, Metallica

Existir, existe em todo lugar, mas no Heavy Metal é muito pior: se algo é conhecido por muitos, vira “mainstream” e perde a graça.

Sei lá. Parece que metaleiro precisa ser diferentão.
Tem que saber o nome e a história de todos os integrantes, ter a discografia detalhada de cor, ter duzentas camisetas pretas com as capas silkadas.

“Nothing else matters” foi sucesso de rádio e televisão, mesmo sendo composição de uma banda de Heavy Metal – coisa que não acontece sempre -.

Lançada em 1991, trata-se de uma balada magnífica, arranjada progressivamente, tocando o melhor de dois mundos.
É inteirinha perfeita, dos arpejos iniciais, vocal de Hetfield, passando pelo crescendo, solo, fade out final. Inteirinha perfeita.

Só que virou mainstream, então “morreu” para os frágeis ouvidos metaleiros.

Porém não serei eu que deixarei essa joia morrer.
Da minha playlist nunca saiu, nem nunca irá.

E vou ouvir outra vez, só de sacanagem:

 

6- We are the champions, Queen

Nem de longe a melhor canção do Queen, o efeito “ouvir até esgotar” recaiu sobre a canção “We are the champions”, de 1977.

Gasta, tadinha, sua reprodução passou a gerar certo nojo.

Embora sua composição seja repetitiva, enquanto harmonia, é muito bem trabalhada.
Nasce com piano e voz suaves, assumindo um apogeu magnífico em seu refrão, num casamento perfeito da banda e corais, próprios do Queen.
O ciclo se repete algumas vezes, tendo o solo de Brian May entre essas repetições, até o fade out final.

É um hino da vitória apesar de tudo. Uma massagem de ego.

Está “passada”, sim, mas continua linda:

 

7- Epitáfio, Titãs

Uma reflexão post-mortem ainda em vida, Epitáfio leva à pensarmos sobre quanto deixamos de fazer no hoje, contando sempre com um novo amanhã.
Em resumo, nos distraímos e, vivendo, deixamos de viver o que “realmente importa”.

Tem a mesma receita de todas as canções que listamos aqui: melodia dócil, familiar e repetitiva.
Caiu nas graças do público em 2002, e foi tocada até desmanchar.

É chatinha, mas sua letra merece carinho eterno e aquele espacinho para meditar:

PS.: O clipe oficial não existe no canal oficial dos Titãs… Isso diz muita coisa O.o.

 

8- Anna Júlia, Los Hermanos

Nem Los Hermanos aguenta mais “Anna Júlia”.

A canção foi lançada em 1999, e levou os cariocas então desconhecidos ao topo das paradas.

A TV, o rádio e as bandas cover fizeram questão de acabar com sua boa imagem.
Até discussão com jornalistas o estigma já rendeu…

Quando até a banda que compôs evita tocar a música, quer dizer que enjoou mesmo.

Só que, ainda assim, é muito boa, e, naquela festa de casamento, se tocar, todo mundo vai pular e cantar junto:

 

9- Detalhes, Roberto Carlos

O hino do cara-que-se-arrependeu-do-término, “Detalhes”, de 1971, é um checkpoint na carreira romântica de Roberto Carlos.

Sabe aquele ciuminho amargo, saudade coisada, afirmações para auto-convicção de que “quem perdeu foi ela”, como se alguém morresse por terminar um relacionamento. Bem o ego machucado.

Problema é que esse comportamento é quase-padrão, então todo mundo acaba ouvindo, lembrando daquele término, chorando, ouvindo de novo, e de novo.
Isso, num período de quarenta anos, certeza que vai coisar.

Bonitinha, repetitiva e nostálgica, não merece essa morte horrível, vai?

 

10- My heart will go on, Celine Dion

Essa é chata… Senhor!
Problema é que é tema de Titanic, o filme mais assistido do Universo.

Tá feita a merda…

Celine Dion é uma cantora excepcional. Seu compromisso com a excelência de sua voz, o decurso de sua carreira, tudo comprova esse fato (ao ponto de, sinceramente, achar um desperdício seu nome ser vinculado imediatamente a essa música).
No entanto, a monotonia da composição, por si só, já é um completo desserviço.
Não bastasse isso, estamos desde 1997 ouvindo-a em todos os casamentos, todos os karaokês, todos os programas caça-talentos.

Pensa?!

Porém, pelo apogeu e pelo lindo solo de flauta, merece estar na lista:


Concluindo esse pequeno revival, acredito que, como tudo na vida, a música deve ser “bebida com moderação”. Caso contrário, corre o sério risco de ser julgada e condenada eternamente à prisão no barril da chatice.

Porém, como disse Niet: “Sem música, a vida seria um erro“. Não erremos, assassinando estas ;).

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