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“Diabolus in Musica”

O fantasmagórico, embora sorridente cadáver de um padre ilustra a capa da “masterpiece” do Slayer.

Diabolus in Musica“, se me cabe afirmar, é o Death Metal por definição categórica.
Fala-se sobre suicídios e mutilações. Fala-se sobre o prazer de matar, o desejo pelo doentio, mórbido, infernal.

Violência encrustada, prazer pelo perverso, devoção ao horrendo.
Eis a temática básica do Death Metal. Eis a temática essencial de “Diabolus in Musica“.

Quando conheci o Heavy Metal, demorei muito a chegar ao entendimento de suas vertentes.
Minhas primeiras grandes paixões foram os anfitriões, Metallica e Iron Maiden, com Bruce Dickinson.

O próximo passo na caminhada dei em direção ao Power Metal, estilo que ainda hoje me fascina.
Dalí, por vicissitudes do destino descobri o Black Metal de Burzum, de Zarg Vikernes, e me apaixonei.
Apenas então conheci a obscuridade da vertente e, na busca por mais, atingi o Trash pelas mãos de Tom Araya.

Embora gostasse de tudo que ouvia, um trabalho em especial entregou o “espírito” que me faltava… Aquela sensação de que o todo vive uma vida própria, respira. Este trabalho foi “Diabolus in Musica“.

Não só a construção musical é excelente, com execuções tecnicamente perfeitas, mas a ordenação do álbum é matadora.
Não há uma vírgula fora de lugar. Não há uma faixa que valha um skip. Não há um ponto sem nó.

Chamo Diabolus de “masterpiece” justamente por essa sinergia, esse magnetismo que o produto apresenta.
Como que na sanha pela ousadia, não cabe aqui a corriqueira organização de Slayer como “Trash”.
Foi. Foi sim. Aliás, ainda é, por natureza.
No entanto, se quisermos ser sinceros com as essências, “Diabolus” e “God Hate us All” não podem nem devem jamais serem taxados como produções senão da cena “Death Metal”, e da melhor qualidade.

 

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Nosso álbum inicia-se com “Bitter Peace“, definitivamente a melhor música da banda, que conclui-se com um corte seco, um soco…

Rompe-se o silêncio com “Death’s Head“, que mostra um casamento perfeito de continuidade com o ápice da faixa anterior.

Bitter te mói os ossos, enquanto Death’s Head coloca a adrelina em seu coração, sensação que vigora pela próxima faixa, “Stain of Mind“, até o refolego em “Overt Enemy“, que é introduzida por um longo instrumental de baixo tempo, crescendo durante a execução, mas nunca extravasando.

O respiro não dura muito. “Perversion of Pain” entrega o Slayer “de sempre”: a canção perfeita para um headbang com a devida pancadaria.

Love to Hate“, que dá sequência, embora não apresente nada novo ou que valha menção, trabalha a relação entre bumbo incrivelmente destacado com frases de guitarra ridiculamente agudas, abusando do tremolo, dando uma cara fantasmagórica à melodia, abrindo alas para a próxima pista, um modus raro para o Slayer.

 

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Desire” inicia com um semi-arpejo clean, acompanhado do chimbal, até que atinge, já com distorção e abuso da caixa e bumbo, a estrofe sussurrada, muito mais própria de bandas como Alice in Chains e Slipknot.
Toda execução é psicodélica, lembrando drogas sintéticas, entorpecimento mental.
Num descuido, qualquer um poderia atribuir “Desire” a qualquer outra banda. Porém, sejamos honestos: é Slayer, e um puta monstro!
Uma última nota, falamos da primeira canção do álbum que encerra-se com um fade out e não com um corte seco.

No percurso, “Unguarded Instinct” retoma a normalidade, infelizmente posicionando-se como a faixa menos expressiva.
Uma vez terminada, “In the Name of God” vem para a blasfêmia (tão natural do Death Metal), com letra roubando toda a cena.
Fala-se, na canção, sobre um deus cruel, sádico, violador: o anticristo.
A execução de bateria é um show à parte.

 

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Na interrupção mais grosseira do álbum, começa “Scrum“, um trabalho de berros e riffs quase tão complexo quanto os executados em “Bitter Peace”, canção inicial.

Screaming from the Sky” toma o lugar, devolvendo-nos aos horrores da guerra, a mais decadente expressão da humanidade.
Trata-se da mais “calma”, se posso dizer assim, faixa do álbum.

Em seguida, nasce “Wicked“.
De tudo que poderia falar, o que mais me comove e força a fechar os olhos é o exuberante uso dos pratos de condução, recordando marteladas compassadas de um ferreiro medieval, forjando o metal em sua bigorna.

Point” encerra o álbum.
Sua melodia é um êxtase constante, muito bem trabalhado em bumbo duplo e viradas terrivelmente expressivas.
Poderia perfeitamente figurar como um hino do Cavaleiro do Apocalipse que veste-se de Morte.
Porém, divergindo de toda tradição, fala sobre o cavalgar contemporâneo: a guerra moderna.
Apresenta-se como o encerramento perfeito da obra. A celebração do terror, homenageado durante a quase hora de extensão.

 

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Diabolus“, como já cansei de repetir, é um trabalho essencial para admirar o Slayer. É um ponto fora da curva, apesar da idade avançada (seu lançamento foi em 1998).

Tendo esquecido de mencionar no início, seu nome refere-se a uma expressão latina pré-medieval, que devemos traduzir como “o Diabo na música“, referindo-se à utilização de dois acordes em trítono ou de um acorde diminuto numa harmonia.
À época, tal utilização, que, rompendo a familiaridade musical, apresentava inquietação e confusão, era considerada demoníaca, sendo proibida pela Igreja.

Apenas a título de curiosidade, medievais como Beethoven já apresentavam trítonos em suas composições e, hoje, não só vertentes do Metal a mantêm como Jazz, Bossa Nova e mesmo POP já empregam. Podemos, portanto, presumir que as potestades do inferno são muito criativas no que diz respeito à Música…

Concluindo, como todas as considerações acima sobre as faixas são subjetivas, convido à audição e, caso discorde, a caixa de comentários está logo abaixo. Sinta-se à vontade.

Só um adendo final:

Quem fizer questão de reclamar por eu ter colocado o álbum (e a banda, consequentemente) como Death e não Trash Metal, primeiro ensine o pessoal do Cannibal Corpse o que é coisa e outra. Eles, como eu, também vêem um Slayer muito mais próximo do Death que do Trash… Isso há muito, muito tempo ;).

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