democracia
 

A Democracia precisa entender…

A Democracia precisa entender um bom par de coisas.
Coitado de mim, me apaixonei por essa dona assim que ouvi seu nome.
Não há nada tão próprio do apaixonado quanto a idealização.
Ah, senhora Democracia… Se me cabe contar, quanto te idealizo!

A Democracia precisa entender um bom par de coisas. Isso é fato, e é inegável.

Eu, apaixonado por ela, tal que me descobri e, descoberto, me fiz Anarquista, de sangue vermelho – daquele tipo que se cabe odiar, se custa aceitar, se adora ouvir (não que seja amável me ouvir, especificamente. Falo mesmo do tipo), hoje entendo.

Nesse belo par de coisas, que já mencionei, há algumas que, mesmo sem parar para refletir, sou capaz de acusar, em minha amada, como terríveis carências, das mais perigosas.

Peço, ao leitor, que não se enoje do ritmo, modo, do jeito descrito. Ocorre que os amantes, por vezes inebriados, seja do que se bebe, seja do que se pensa, seja do que se sente, acabam compondo em odes o que a cabeça, o coração e a azia do estômago descrevem.

Me vejo, eu, coitadinho de mim, num desses momentos, onde os dedos fazem carinhos gostosos nas teclas, a cabeça se gira, tentando encarar o escrito, e o ecrã se faz uma tela de Dali, de Picasso, de qualquer outro maluco, drogado, propenso a achar que, da merda que faz, faz brotar arte.

Ah, a arte… Mas não é dela que pretendo falar. Hoje não. É da amada Democracia.

Problema mora na casinha vizinha, com fumaça cinzenta surgindo da lareira. Penso que aqui já tornou-se enfadonho o esmero.

Falemos, portanto, do que ela precisa ouvir:

A Democracia precisa entender que é ideologia, que é utopia. Que é mais um par de pensamentos de cabeças doídas e adoecidas.
Precisa entender que, tal qual Fascismo, Conservadorismo, Anarquismo, Socialismo, trololó-ismo, não passa de ideologia, e tem ponto de arranque, de sustento e de morte.

Ela, a Democracia, precisa saber que casou com democratas. Precisa compreender que, a menos que deseje o adultério, é com esses que sustenta o casório.
Democracia, minha dona, és a “vox populi”, aquela que disseram “vox Dei”, seja lá que caralho isso represente. És o produto do desejo de um povo, de um aglomerado, de um objetivo, esse comum.

Como o Fascismo casou-se com fascistas; como o conservadorismo casou-se com a porca Igreja; como o Anarquismo casou-se com os loucos e o Socialismo com os que buscam na divisão o engodo da riqueza, tu há casado com os tais democratas.

E quê resulta disso?

Ah, querida Democracia… Tantas coisas… Algumas singelas, embora de complexa aplicação; outras doloridas, das quais sua vida depende.

Casando-se, pois, com democratas, não cabe a ti mais, como disse, a menos que abraces o adultério, aceitar os gracejos dos cachaços senhores de engenhos, a menos que pretendas matar teus filhos de fome, na paupérrima pobreza.

Não cabe, também, buscar na maioria vociferante teu consolo, a menos que pretendas que teus mais necessitados bebês sejam jogados nos fossos do esquecimento.

Acontece que, ao esquecer-se do todo, o difícil, abraçando a maioria, o mais fácil, não serão poucos os que do teu leite jamais aproveitarão.

Seria, pois, a ti uma crueldade terrível a pesar no curriculum.

E deixo, então, de me dirigir diretamente a ela, dando o espaço para que reflita, e passo a falar à terceira pessoa, essa, agora, absorta em seus próprios problemas.

A Democracia precisa entender que é um corpo, como qualquer outro corpo vivo.
Penso no meu organismo. Esse que, ao encontrar “corpo estranho” correndo, bota os exércitos globulares a correr atrás deste, até que o exterminem.

Falar de extermínio é estranho, eu sei. Mas é, digamos assim, “fisiológico“.

A Democracia precisa entender que, se não tratar esse tal como inimigo, ele a matará.
É o que propõe se infiltrar para destruir; o que começa a atacar desde a pele; o que começa a se multiplicar, o tal do câncer, a quem tanto o corpo dispõe-se a temer…

E o ainda mais perigoso: o vírus da AIDS, que se veste de democrata para, uma vez infiltrado no corpo democrático, enganando os exércitos globulares, destruindo um a um, vestir-se de cordeiro quando, na verdade, é um lobo.

Eu penso que sim, que a Democracia hoje ainda precisa tratar sua inclinação ao adultério, tanto que nem disse a ela o que penso sobre “o depois”. Porém confesso, de peito aberto, que, uma vez concluído esse exame de consciência; uma vez que se atreva a amar seus verdadeiros amantes, seus olhos precisam tratar a si mesma como um corpo, passando a combater suas doenças.

Ah, Democracia, eu te amo tanto…
Leia, então, o que te disse e, disposta a tal, reflita sobre o que disse aos que te conhecem?

Nunca hei de deixar meu depósito em ti esvaziar.

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