trump0
 

D. Trump – o filho sem pai

Tenho comigo um mandamento, nas interações sociais: não preciso sentar-me no bar para discorrer com alguém cujo pensamento seja uma porcaria, mas preciso ouvi-lo sempre.

Talvez por isso eu seja uma das poucas pessoas que conheço que, ainda hoje, consegue permanecer livre da bolha do Facebook (sobre a qual falamos em Ignorância te faz feliz, mas custa caro e Levei apenas dez dias para foder meu feed), acabando obrigado a ler de Reinaldo Azevedo (a cadela do fascismo em cio perene) a PH Amorim – diria Alpha e Ômega do dialeto ideológico universal.

Pois bem. Nesse meio tempo – último ano, principalmente -, assisti os dois lados da moeda da politização infantil brasileira, com os movimentos Pró e Anti-Impeachment, movimentos Pró e Anti-Esquerda, apoio e repúdio absolutos ao governo golpista de Michel Temer (sim, eu tenho as minhas próprias convicções. Quem ficam em cima do muro é caco de vidro), enfim, vi tudo.

E, tendo visto tudo, não posso não me ater a um detalhe magnífico: a neo-Direita brasileira repudia veemente Donald Trump, e sofreu muito com sua eleição à Presidência dos EUA.

Entendo que politização no Brasil seja um grave problema.
Saímos, há pouco, de uma Ditadura Militar que balançava a bandeira do “Política, religião e futebol não se discute”; nosso ensino infantil e juvenil é precário; leitura não é hábito, a menos que seja legenda na TV – e olhe lá -.

Disse neo-Direita e foi intencional: não existe Direita política brasileira verdadeiramente. E defendo:

Conservadorismo é um dos movimentos políticos mais fortes e presentes nessa jovem República com 68% de cristãos. No entanto, enquanto abraça passados alheios, o Conservadorismo só se mantem vivo quando seus discursos são Populistas.

Liberalismo e neo-Liberalismo são bebês aqui, ao ponto de serem abraçados por conservadores acéfalos, que passam a papagaiar o que alguém disse que alguém disse na Escola Austríaca.
A maioria dos “liberais” que conheço é contra o feminismo, contra movimentos LGBTT+, contra movimentos anti-racismo e reparos em nível social. Nisso, só posso supor que imaginam que o radical “liberal” diz respeito ao futebol italiano (líbero), e não à liberdade (liber), já que são apenas fascistinhas de condomínio fechado.

O mesmo poderia ser atribuído aos recém-nascidos libertários brasileiros, sem medo de errar.

 

trump1

 

Não tem jeito. No Brasil, o Partido Político da “Privataria Tucana” assina ser Social Democrata (que é ideologia de Esquerda), e mesmo os mais retrógrados entre os ditos conservadores possuem algo de democrático na sigla e na cartilha (o DEM não me deixa mentir).

Então, meu povo, não sou eu quem vai falar sobre a Direita brasileira, porque essa sequer nasceu.
O termo que designará o movimento reacionário será, queira-se ou não, neo-Direita.

Alguém poderia vir e dizer que estou mentindo, mas fatos enterram suposições com pás de ouro:

Não-lembro-o-nome Holliday é um recém eleito Vereador pelo município Paulistano.
Ele é membro e um dos fundadores da ONG (Organização Não Governamental auhuhahuahua) MBL, o Movimento Brasil Livre, junto com o menino do Megazord, colunista da Folha – ONG essa uhahuauhuha que elegeu um par de Vereadores nas municipais de 2016 e recebeu convite de Temer, o Golpista, para integrar a PR do Governo Federal brasileiro, mas segue sendo ONG… -.
Menciono o Holliday por ser um rapaz negro que, assim que assumpto, prometeu trabalhar no desmantelo das reparações sociais contra negros, com o sistema de cotas.
Há quem venha a, imediatamente, lembrar no mordomo de Leonardo diCaprio em “Jango Livre”, de Tarantino.

Jair Bolsonaro é o rei da groselha sem água. Enaltecido por uma proposta de castração química a criminosos sexuais – ação essa que, segundo especialistas, agrava a questão, já que estupro não está no campo sexual, mas de compensação (e até o próprio senso comum confirma) -. Vive sua vida pregando o “bem para quem é de bem”, mas é um dos primeiros a caçoar de seu potencial eleitorado, assinando a PEC do retrocesso, e defendendo seu bebê-marmanjo, Eduardo, no projeto de benesse vitalícia a ex-Vereadores, na Câmara do Rio de Janeiro.

Posso seguir minha vida aqui apontando exemplos, mas duvido que seja realmente necessário.

Agora, nesse cenário de neo-Direita que, dentro dos Partidos, embora saibam bem quem são, vestem mascaretas centristas para angariar votos, e, fora dos Partidos, está composto por uma imensa massa de consumidores de Globo e Veja, saber mesmo como a roda roda é um luxo.

Aí nasce Donald Trump.

Ele vive como o Prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr.
Ele fala sobre mulheres assim como Bolsonaro.
Ele apresentou um programa, como um executivo brasileiro, convidado a participar do Governo Federal golpista de Michel Temer.
Ele é racista, como boa parte da neo-Direita.
Ele é xenófobo, como a maioria da neo-Direita.
Ele é acusado de estupro e moléstia sexual, como o mensageiro de Gezus Marco Feliciano.
Ele sonega impostos descaradamente, como boa parte da nossa classe executiva.
Ele presa pelo mercado interno, como nossos queridos liberais.

Até aí normal.
Nihil novum sub sole” – como diria o ditado latino “nada novo sob o Sol”.

Problema nasce quando D. Trump vence a eleição.

Foi na madrugada, por volta de 3:30h, o que fez que boa parte desse continente estivesse dormindo.
Mas, e de manhã?!

Nossa! De manhã foi o prelúdio do Apocalipse! Toda a neo-Direita bolsonárica (exceto o próprio, que estava feliz p’ra caralho); a neo-Direita feliciânica, a temêrica, a doriana estava aos prantos!

Mas, diabo! Por qual motivo?!

A mim parece simples, e talvez faça sentido: ele é externo. E um mal alienável, como os estupradores coletivos.
Ele não é Doria, Bolsonaro, Feliciano, Temer. Ele é Trump, exterior, alienígena.

 

trump2

 

Mas, queridos, neo-Direitosos, não é ele, por discurso, um empreendedor de sucesso?! Não foi esse o discurso que, em São Paulo, fez faxineiros, moradores do Jardim Ângela, votarem em Doria (não que não possam. Podem tudo. Só que… Né?!)?! Não foi maravilhosa a vitória do Doria?!

Não é ele quem fala de mulheres de um modo sem “mimimi”, como os Esquerdopatas brasileiros e as “feminazis” que, segundo Janaína Paschoal, vossa musa do Impeachment sem crime de responsabilidade, se “ofendem até com elogios”?!

Não é ele que apresentou programa de televisão igual a alguns de vossos ídolos de sucesso por suor, como João Doria Jr., o menino-caxemira?! Não foi lindo Doria vencer?!

Não é ele quem vai salvar os EUA dos “invasores”, que “roubam trabalho dos nativos” – e me desculpem se lembro de “Uma outra história americana”?!

Não é que Feliciano foi acusado de estupro por uma “louca, fantasiosa”, que vai ser desmentida?! Não vai ser o mesmo com ele, ainda que na acusação de pedofilia?!

Impostos não são roubo?! Não são vocês que lutam pelo “Estado mínimo”, e dizem ser “Contra a cultura do imposto”?!

Porra! E aí, como fica?!

Sabe de quem me lembro?! Do Dr. Banner, nos HQs de incrível Hulk. Construiu o monstro, mas, quando viu, não quis mais saber dele.

Vocês alimentam a monstruosidade, a intolerância, violência, preconceito e discriminação, mas, quando está na mesa, vocês não querem mais comer?!

Adubam a planta venenosa até o estado de máximo desenvolvimento e, quando já está, querem se abster?!

Qual diabo os faz repudiar Donald Trump?! O espelho?! Pois não! Olhem mesmo para ele! Os frutos de vosso esforço de plantio estão brotando!

Sei que Trump vos é um filho feio, mas não por isso deixa de ter pais e mães.
Abracem vosso filho laranja, Trump, ainda que feio. Nasceu de vocês.

E durmam com essa, canalhas, como diria o “esquerdopata gayzista, anti-família tradicional”, Jean Willys.

 

Podem me dizer que Trump não vos representa. Mas só aceito se concordarem serem esquerdopaaaaaatas. Caso contrário…

 

CC BY-NC-ND 4.0This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License. Permissions beyond the scope of this license may be available at Mario Feitosa - Políticas.