abismo
 

À beira do abismo


Nunca prestei meu suporte ao governo de Dilma Rousseff.

Nunca a entendi como Presidente capaz.

Em 2013, no final de seu primeiro mandato, fiz o pior uso possível de meu poder democrático, oferecendo meu voto de boicote. Fiz uso de todo tipo de retórica e exposição, mesmo venenosa, injusta e inadequada, para impedir meus mais próximos de depositarem nela seu voto e voz democrática. Não me orgulho do modo, enquanto não sei se me aparto da ideia.
Tinha já muito claro, na minha safa malícia mundana, as consequências daquela eleição para o país. Porém, do iceberg, não conhecia sequer a ponta.

Desde Novembro-Dezembro de 2013, muitos pavões resolveram abrir suas caudas, esquecendo-se que, nisso, expunham seus cus. Dançaram, pintaram e bordaram com as coloridas plumas azuis, verdes e brancas (que ironia, não?) ao vento, esquecendo-se nisso de seus próprios cus, e sujos, aliás.

Existe uma crise econômica no país. Isso é inegável.

Há tempos trememos com os tsunamis internacionais nos mercados financeiros, com o preço da moeda, digamos, universal, e suas consequências no nosso pão, água, arroz e feijão.
Inflação – que é o câncer econômico mais devastador possível -, exportação a preço de banana e importação a quilo de ouro, não há ser humano na Terra capaz de não arregalar os olhos, seguindo o encanamento, para descobrir onde está a pingueira. Natural.

Aqui nasce um problema: privados de educação, informação e todo tipo de engrandecimento intelectual – presente da Ditadura Militar e dos interesses de abastados -, achou-se como causa do deletério a Assistência Social.

Sejamos francos: é, sim, muito possível tornar tal auxílio uma ferramenta de conquista de massas. É o espírito negativo do Populismo. No entanto, focinho de porco e tomada não são nem nunca foram a mesma coisa. Nesse ponto que mora o perigo.

Sabe a luta de classes, que tanto nega-se a existência? Pois bem. Lá estava ela, viva e baforante, condenando os beneficiários do apoio assistencial à alcunha de “causadores da crise”. Cresce o ranso pelo governo dito populista, e o repúdio pelos tais “vagabundos”, entendidos nas pequenas cabeças brasileiras como sendo sustentados pelo seu suor.

Está feita a merda.

Como se não bastasse, com direitos elevados à investigação, a Polícia Federal inicia um período incomparável de investigações por corrupção, contando com prisões e delações, escancarando o pudim de merda que se tornaram nossos poderes e nosso Estado de Direito.

Sabe como faz bolo? Farinha, manteiga, ovo, açúcar, tal e, para dar certo no fim e não virar uma sola de sapato, fermento. Ahhhh, o fermento.

Imagem de governo desgastada pela percepção de Populismo – superficial, por sinal -, discursos risíveis, descaralhamento econômico e, p’ra fazer a massa crescer: corrupção como fermento.

E, de novo, três gerações de pessoas ducadas, zero educadas, ignorantes, o quê, imediatamente vão entender? Se está saltando tanta corrupção aos nossos olhos, só pode ser culpa do atual governo – e me incluo nessa -, nunca resultado de ações desse.

No decurso desse segundo mandato de Dilma, os lençois que cobriam a velha mobilia foram retirados, produzindo muita poeira.

Com um olhar minimamente crítico qualquer um é capaz de entender o plano: sem grandes expectativas em avanços econômicos, previsões terríveis financeiramente, progressiva perda de apoio no Legislativo, o que fazer? Ué! Joga a merda no ventilador! E foi o que Dilma se propôs a fazer. E foi aqui que colocou a corda no pescoço.

Nessa altura a imagem da incapacidade, que carregava, já começa a se desfazer. Quem é essa pessoa que, vendo-se sem muitas alternativas, resolve apontar os cus dos pavões – mesmo de seu próprio partido -?

Mas por qual razão falo de corda no pescoço? Simples: com isso, Dilma condenou-se à ingovernabilidade, perdendo alianças e apoio no Congresso, ebulindo a fúria plastificada do vampiro, que guardava em seu chaveiro, como Vice.

Se tivesse mantido a torneirinha de Cunha, Aécio e companhia na Petrobrás, duvido sinceramente que esse pedido de Impeachment tivesse permanecido vivo mesmo na Câmara. Mas não manteve não. Aecim, que já amargava a derrota nas urnas, num piti violento de garoto mimado, agora tinha que lidar com a iminente virada do “tapete”. Isso não!

Eis que vemos armado o circo. Circo esse que nos custa credibilidade internacional, com uma crise política orquestrada por gênios da trambicagem, contando com a dança infernal da mídia interesseira, aliada, custe o que custar – p’ros outros, claro.

Impeachment não é golpe. Impeachment é um processo previsto em Constituição Federal.
Repito: Impeachment não é golpe. Mas e esse?

Impeachment, meus caros, é um processo misto (jurídico/político) que busca garantir que um indivíduo eleito não possa dolosamente prejudicar a máquina para seu benefício particular.
Não é um processo puramente político porque, se o fosse, arriscaria a natureza mesma do Estado Democrático de Direito, já que, com alianças, interesses e benesses é possível levar um a cabo facilmente. Por isso mesmo a lei do Impeachment, para mesclar a tirititicagem politiqueira, na decisão, com um mecanismo legal de suporte.

Há quem diga que está tudo bem, que Impeachment é um processo político e zaz, que Dilma Rousseff é incompetente e, a essa altura do campeonato, já não é mais capaz de governar, posto não possuir apoio sequer de seu partido.
Há quem diga sim, como há quem diga que a Terra é plana.

Capaz de governar eu concordo já não mais ser. Assumo.

Agora, entre não ser capaz de governar, por não emparelhar-se com um bando de urubus, e precisar ser impedida tem um abismo, não? Onde fica a Democracia e a vox populi da urna?!

Caso é que nosso país é regido por uma Constituição Federal, que está cagando para se o país vai quebrar ou não: ela só permite e garante retidão de natureza de um processo de Impeachment quando as definições legais desse são observadas.

Aí que fica inteligível chamar de golpe parlamentar. Um Impeachment político que não busque em absolutamente nada senão retórica plantar, regar e fazer brotar um crime de responsabilidade que, segundo muitos teóricos não existe, não é um Impeachment. Depôr um chefe de Estado num país cuja Constituição exige condenação por lesão da União, sem tal lesão, não tem outro nome senão Golpe de Estado, bem gourmet, aliás.

Nem vou entrar no mérito da encomenda muito bem paga desse processo a Janaína Paschoal, nem do vasto interesse de Eduardo Cunha de foder quem lhe fodia. Nem vou. Fica a critério. Tanto que muita gente chama esse de “malvado favorito”. Estocolmo, talvez?

Finda minha opinião particular sobre a sucessão de fatos, convido a uma reflexão muito importante das consequências dessa papagaiada para o futuro: precedente com amplo apoio popular.

Olha só que interessante: sem unanimidade no entendimento do crime de responsabilidade, temos um Impeachment vazio – ou seja, um golpe – arrastado apenas por interesses políticos, tratado por investigados e condenados por corrupção – pior: golpe gourmet, parlamentar e apoiado pela mídia.

O que mais me espanta em tudo isso é como e quanto a mídia é capaz de tendenciar o PENSAMENTO de massa. Porra! Tendenciar pensamento é uma coisa MUITO FODA! É lavagem cerebral!

A mídia julgou e condenou, e vendeu o veredicto – e segue fazendo.

Até uma menção honrosa: parabéns, Globo! De novo, como em 64, consegue justificar o injustificável! Quem disse que raio não cai duas vezes no mesmo lugar?!

Agora, sobre o precedente: qualquer futuro Executivo que não se disponha a emparelhar a safadeza, que não priorize bancos e abastados, que não encubra a sujeira, meus caros, será impedido! Tem cor de Ditadura, cheiro de Ditadura, gosto de Ditadura e assim aparenta ao tato? Será que é Ditadura?

As consequências para tal veremos no futuro, já que deixamos definitivamente a Política se converter em Gerente de Interesses de Magnatas – a mesma Política de que devia garantir a ordem e o progresso nacional. É, aos meus olhos, o enterro de uma Democracia.

Como final, já enfraquecido por dentro, com medo das consequências futuras desse carnaval fora de época – especialmente para os mais pobres e necessitados (ou seja, a esmagadora maioria de nós), peço que olhem essa foto de uma jovem sentada num tribunal de urubus covardes. Olhem essa foto e procurem as cenas de hoje. Veem qualquer diferença? Eu não.

 

dilma

 

Eu, que nunca prestei meu suporte ao governo Dilma Rousseff.
Eu, que nunca a entendi como Presidente capaz.
Eu, que fiz o pior uso possível de meu poder democrático, oferecendo meu voto de boicote.
Eu, que do iceberg não conhecia sequer a ponta, vejo a figura a mim vendida de inaptidão como uma montanha de caráter e decência.
Eu, que bradei aos sete ventos em 2013 – e me arrependo amargamente – “fora, cabeçuda!”, hoje conheço uma heroína, e não consigo não encher os olhos de lágrimas, implorando: Fica, querida?!

Perco uma Presidenta – como ela gosta de ser chamada -, mas ganho o prazer de, pelo menos nos últimos tempos, ter apoiado uma heroína.

Deus perdoa sempre. Pessoas, de vez em quando. A história não perdoa nunca!

 


 

Na sequência, link para o discurso integral de Dilma Rousseff hoje, no Senado Federal:

http://m.huffpost.com/br/entry/11760384?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004

CC BY-NC-ND 4.0This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License. Permissions beyond the scope of this license may be available at Mario Feitosa - Políticas.