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Anos Dourados, de Tom Jobim, e as piadas do tempo

Quem nunca lembrou com gosto daquele Dezembro, naquele Ano Dourado?
Pois é: Tom e Chico quiseram deixar o gostinho de saudade eternizado nessa linda canção.
Que tal viajarmos acorde a acorde, verso a verso?
Não é, pois, no modo certo de lembrar que repousa toda graça de um amor antigo?

No ano de 1987, compunham Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim (o Tom) uma pérola dos ex-amantes saudosos.

Conta Chico que a linda canção foi escrita para Bethânia (a Maria), para que “colocasse” a voz. Pronta, a peça seria trilha de novela da Rede Globo. Chico estende a informação e revela que levou um ano a mais que o pedido para terminar a letra que daria matéria para a melodia formosa de Tom… Falhou com a emissora mas ganhou com o mundo.

Bethânia, por fim, interpretou a tal canção com sua voz forte e firme, com seu destempo de entrada que mata qualquer instrumentista, mas, como já lhe é próprio, rasgou as sedas dos tímpanos e abriu as comportas dos olhos dos lacrimejantes ouvintes com seu timbre e paixão.

A obra Anos Dourados, desses monstros, é um presente para a música popular brasileira. É um presente para o mundo. É um presente e um fardo para quem pôs ou aceitou o fim de um relacionamento.

A melodia de Tom é quadradinha, daquelas que se acostuma fácil. Sem muita variação, segue um tempo tranquilo, previsível e se repete (aquela familiaridade do que não assusta, do que já se conhece nos primeiros versos e se torna íntimo), levando a fechar os olhos, tomar o vinho, no escurinho, e voltar no tempo, naquele Dezembro daquele ano dourado…

 

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Além da indescritível interpretação de Bethânia, muitas percorreram a história dos maestros: Gal cantou, Chico interpretou sozinho, voz e violão, Tom a tocou, voz, backing vocals e piano (em dois idiomas), mas há versões memoráveis, onde Tom guia a canção, liderando a banda, encorpando o já perfeito com seus “barabirá babols” (aquelas vocalizações inefáveis que só esse Maestro sabia fazer), enquanto acariciava a escala preta e branca, pelo tempo que Chico, com sua voz simples, sem firula, sem vibrato, mas cheia de encanto traduzia aquele maná para um idioma inteligível.

Anos Dourados é o tipo de música para se ouvir no breu, com taça de vinho acre e nada mais no mundo que possa devolver o espírito ao tempo. É entrar numa bolha de relatividade e beber mais música do que álcool, já que essa é bem mais inebriante.

A letra de Chico não conta nada novo para quem já perdeu ou se perdeu numa história de amor: lembranças doces, de tempos áureos, ações impensadas e vergonhosas, encontros mal acabados, desejo do hoje, nenhum querer de um amanhã… Enfim, uma salada de sentimentos, uma vitamina de lembranças boas e ruins, batidas num liquidificador, certo e errado andando de mãos dadas num vórtice cardíaco e mental com e sem resposta. Confusão… Tem outro jeito de falar do fim de um amor sem falar de confusão? Duvido…

Quem já provou desse vinagre sabe que o sem sentido faz sentido até demais…

 

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Há o ditado, e pior que é verdadeiro: “Amor que morre nunca existiu”. E não existiu mesmo! Amor não é paixão, coisa que apaga com o tempo, coisa que esfria e some. Amor não some. Amor muda.

Amor é feito água. Movimenta a vida, refresca, relaxa… Mas amor, como água, muda, evapora, congela, sublima…

Essa analogia talvez seja a mais apropriada: sem água não há vida. Sem água se seca, se resseca, se esvai. Amor deve ser a água da alma… Sem amor a alma se seca, se resseca, se esvai…

Não há no mundo vida que persevere sem água. Não há na vida alma que persevere sem amor.

Mas e quando o amor evapora? E quando congela? E quando sublima?

A resposta é bem simples: se guarda num pote, num baú. Põe-se o baú no porão, com etiqueta de “não abra” e tenta-se seguir a vida… Aquela vida que precisa de amor para perseverar.

É, sim, bizarro guardar a fonte da vida e querer seguir vivendo, mas, como escreveu Freddie Mercury: “Quem ousa amar para sempre quando o amor deve morrer?”. Há momentos onde aquele amor precisou mudar para outra forma de existência, um outro toma a rédea, o tal do próprio, e é ora de cair no mundo com esse, deixando aquele outro no porão. Quem dera amar como os anjos, como dizia Tomás de Aquino, afirmando que, uma vez amando, nunca mais desviavam o olhar. Mas desviamos. Ah, meu Deus, como desviamos!

Há, num livro (que o autor prometeu publicar até 2020 😉 ), um trecho que diz: “Relacionamentos humanos são terrivelmente complicados pelo simples fato de envolverem uma pessoa mais outra. Caso tratassem de um querer único, seriam a coisa mais perfeita do universo! Mas como envolvem dois espíritos mutáveis, a porra toda descaralha”.

Pessoas são mutáveis. Pessoas acordam desejando o doce e dormem almejando o amargo. Pessoas mudam mais que o clima na capital de São Paulo, e isso é seu modo certo de ser. Pessoas precisam mudar! Pessoas devem mudar! Esse ir, vir e devir é nossa real natureza em processo e progresso!

Imagine só se as convicções dos quatorze fossem nossa régua aos trinta?! Jesus! Que bom que não é assim…

O caso todo é que, durante os relacionamentos amorosos, esse devir nos forma e transforma: o ser que se apaixonou não existe mais, e o ser por quem houve a paixão também não! É um fluxo natural e saudável, mas venderam para nós que era a dona morte quem nos separaria, não nossa reformulação particular. Como lidar com isso?!

 

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O autor do tal livro 😛 pretende que não nos cabe mais essa percepção de eternidade nas relações amorosas humanas justamente por termos rompido as barreiras dos paradigmas de nossos avós e pais e criado um mundo mais fluído, diria efêmero, Bauman diria “líquido”. Como esperar que a morte separe o que dura pouco mais de três anos?!

O problema todo reside nas ideias pouco corretas oferecidas, do peso de consciência de não ter esperado a morte para ser feliz, nos paradigmas religiosos de que aqui tudo é dor e sofrimento mesmo e lide bem com isso…

Essa nossa busca desenfreada pela felicidade, que nem nossos pais nem nossos avós tinham, é quem nos fode forte e sem piedade.

Talvez nossos filhos aprendam com nossos divórcios o quanto os relacionamentos são convenientes. O quanto precisam ser convenientes. O quanto dependem dessa conveniência, do bom para ambos, para perseverar, e como é importante rompê-los quando não mais o são. Mas e nós?!

A nós fica a guerra vencida ou eternamente perdida. O peso de separar ou a dor de aceitar a separação… Os devaneios dos “e se” passados e dos “e se” futuros.

Qual nível de frieza de coração e dureza de lógica exige esse revisitar o passado em cada fraqueza, em cada fracasso de novo recomeço, em cada amanhecer sem pernas entrelaçadas depois de longos anos de calor alheio. E quanto mente a memória, como escreveu Chico, ao depararmo-nos com belas lembranças impressas (afinal só registramos e imprimimos as lembranças mais lindas) que escaparam vivas no fundo da gaveta… E quando, num porre, estouramos o cadeado e abrimos à força o baú do porão?! Ah, Deus, que coisa chata é assistir a cena de um próprio beijo numa fotografia, aquela maldita fotografia onde ela está tão linda e nós tão felizes?!

Por qual maldição não fotografamos as brigas e as frustrações?! Quanta burrice voluntária de eternizar os Dezembros dos anos dourados…

 

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Aí lá vamos nós novamente buscar no arquivo morto da memória o que realmente fez o amor congelar, evaporar… E, olha: vai esforço e tempo e bons centímetros dos átrios cardíacos nessa empresa. Enquanto a porra do bolero fica repetindo “Te quero! Te quero!”, embora saibamos, no fundo da nossa inteligência, feita gelatina pela saudade, que tudo que queremos é que os beijos nunca mais se repitam.

Quem chegou até aqui entende do que estamos falando. Quem leu até aqui já passou por esse tormento. Quem quer continuar lendo talvez tenha até deixado confissões no gravador, e se sinta um lixo por isso. Mas não. Juro que não!

Nosso passado, a soma de nossas escolhas e experiências, é o que nos fez quem somos. Melhores ou piores, foi o passado quem nos moldou.

Embora não seja a melhor receita para buscar o futuro, visitar o passado é importante. Não pode nem deve ser proibido construir botes e voltar às ilhas onde queimamos nossas naus. Isso é desumano.

A tal piada do tempo, que mencionei no título, é justamente isso: não adianta tentar apagar o passado, por bom ou ruim que tenha sido. Ora ou outra a vida vai nos guiar para um “qualquer coisa” que nos levará de volta.

É palpite, mas acredito sinceramente que a única maneira de permanecer inteiro após esses teletransportes ao passado é sublimar esse sentimento. A quem não lembre, a água sublima quando tem condição de passar do sólido para o gasoso sem liquefazer. Traduzindo para a sublimação do amor, passar da dor, da mágoa e do rancor da separação para a amizade, o amor fraterno, sem virar desejo de volta.

Ninguém merece viver com mágoa do ser amado para sempre, mas ninguém deveria poder voltar da mágoa e do desgosto para o desejo.

Sublimemos os amores guardadinhos no baú. Sem reencontros acalorados, que nos motivam a fazer merda e nos arrepender, sem recomeços, que, na maioria das vezes, são erros enormes; sem manutenção de dor e desgosto, que nos fazem definhar. Que nossos amores passados sublimem para o estado da amizade, do querer bem, mesmo que de longe, sem participação, o desejo de que o ex-amor seja tão feliz quanto não foi conosco. Que tantos homens a amem bem mais e melhor que eu, como canta Chico em “Olhos nos olhos”. Mas que jamais deixemos de reservar aquele espaço cheio de carinho e saudade gostosa no porão de lembranças para esses amores e nossos Dezembros de anos dourados. Que malditos insanos Dezembros, regados a vinho, nos levem de volta às doces lembranças, para que fique claro o quão importante esses amores transformados foram em nossas vidas.

 

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E que as recordações dos lindos retratos nos façam sorrir lembrando o quanto nos quisemos e quantos boleros rechearam o nosso livro concluído.

Esse que vos escreve um dia compôs um poema, e relendo ao som de Tom e Chico, parece que cabe perfeitamente como conclusão. Espero que seja assim de fato:

Amor que é amor acaba.
Ora de lidar com isso.
Amor, que é amor, termina
Cede
Libera
Liberta.

Amor que é amor entende.
Ora de lidar com isso.
Amor que é amor compreende
Que mudanças acontecem
E quem muda, muda,
E mudando
Se muda.

Amor que é amor permanece.
Ora de lidar com isso.
Pois amor que é amor permanece
Nos anos seguintes
À separação
Se mantém.

Amor que é amor liberta.
Ora de lidar com isso.
E sente profundo prazer no bem da amada
Seja com quem seja
Seja com ninguém
Seja onde for…

Pois amor é querer bem
Não ‘bem’ como quero
Mas bem como cabe
E bem ‘que cabe’, cabe a quem corresponde
E responde
Dizendo: obrigada por me amar
E entender
Que já não mais nos faríamos bem
E quem quereriamos enganar?!

Que bom que te amei
E que bom que segui
Ainda que te ame, não te quero ‘comigo’
Apenas te quero BEM!

Embora digamos que não queremos nunca mais. Embora seja engraçado as ver com outros amores e apesar de ser desconcertante rever, que nunca esqueçamos de fato nossos amores passados e sublimados.

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