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Amy, Wine and House

Fotos de Charles Moriarty ilustrarão o texto

Tentei por algumas várias vezes assistir o documentário “Amy”, no Netflix.
Ouvi, de incontáveis bocas, quão lindo e triste era. Não pude, ainda, terminar.

Arrastei-me por cinco vezes, assistindo, em cada uma, tudo quanto podia até desmontar.
Agora, cansado de tentar, frente mais hora de material, resolvi desistir, e antecipar a análise e o que tenho a dizer sobre a última joia da música que passou pelo mundo: Amy Winehouse.

Contando o que todo mundo já sabe, falaremos sobre uma mulher incontrolável, de riso frouxo, amarelado pelo fumo, tendência ao vício, especialmente um devastador, chamado “jazz”.

Quem quiser histórico de sua vida veio ao lugar errado. Tem matéria suficiente jogada pelo mundo, que pode ser facilmente consumida. Quero falar sobre o que se vê mas não se percebe, de automático, no que se veja.

Amy Winehouse era desviada.
Penso eu ter tocado, de pincelada, vezes demais por aqui, já. Se não notou, pecado meu de não ter sido claro.

Pequeno spoiler do que vem: falo de uma fatia mínima da Terra. Minoria das minorias. Não farei sentido a 300% de quem ler, mas alguém, talvez, entenda.

 

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Sobre Amy:
Amy era desviada, como já afirmei.

O desvio, teoria de Howard Becker em “Outsiders”, de 1963, propõe que, no mundo, haveriam pessoas incapazes de se torturar, moldando-se ao corrente, e batalhariam por transformar o mundo no produto de seus anseios, sem máquinas de castração, sem regras de normalidade e aceitação, apenas verdade e coerência.

Muitos foram desviados até então. Temos grandes nomes como Roterdã, Schopenhauer, Shakespeare, Allan Poe, mas temos nomes menores e mais contemporâneos, como Robin Williams e Scott Weiland.

A dor da não-conformidade nessa auditoria bizarra de ser vida humana é cruel. Além da dor mental da inadequação, entendo que todos carreguem dor física, também, seja na cervical, lombar, enxaqueca, dor nas articulações dos membros. A dor da inadequação somatiza no corpo. Talvez por isso chorem mais e pior que os “normais”…

Depressão, ansiedade, TOC são tormentos primos do desvio. Dificilmente veremos um desviado que não os abrace.

Nesse espírito, o segundo ponto: Wine

Todo desviado buscará entorpecer seu corpo para gozar da liberdade de sua mente.

Serão alcoólatras e drogados, até para atenuar a dor do corpo, calando por poucos instantes.

Amy foi alcoólatra, drogada e, seu pior vício: cegamente apaixonada.

Aqui: House.

Todo desviado ansiaria por um canto seu, onde pudesse ser-se, repousar. O amor apresenta-se como esse canto, uma vez que ignora locais físicos e se prende ao ideal do “locus animae”, lugar da alma.

Amy não foi morta por seu companheiro. Amy se matou pelo amor que carregava por ele. Preferiu morrer a podar seu amor, ignorando a quem destinava.

A casa de Amy era seu corpo. Seu torpe companheiro, mesmo, a chamava abertamente de “promíscua”. Me permitam os mais livres definir o termo como “senhora de seu sexo”.

 

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Sabendo não estar há tempos fazendo sentido senão à pequena fatia, vou me forçar a encerrar.

Sintetizando Amy, Wine e House naquela natureza, Amy Winehouse foi um beija-flor humano.
Seu coração batia vezes demais, por minuto, para manter-se viva por muito tempo.
Que nenhum cretino tente me desmentir! Amy sabia que “Back to Black” lhe custaria a vida! Desviados sabem que estão se matando! Mas não sabem falar de outra forma que não seja a arte, e essa depende do suicídio!

Vocabulários humanos convencionais não são suficientes para falar. Amy sabia disso e fez o que queria.
Seu pai foi conivente, culpado da irresponsabilidade, mas não conheço muitos meios de se deter um meteoro.

De mim a você: Querida Amy, no trono dos seus 27 você viveu mais do que muitos aos cento e tanto.
Você não tem ideia (ou tem até demais) de quanto disse em cada dissonante, em cada diminuto, em cada acorde seu.

Descanse em paz, querida Amy, no trono de sua glória!

“Can we believe the magic of your sighs”?!

 

 

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